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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

"A CIDADE SEM LIMITES E O URBANISMO NEOLIBERAL. Considerações do caso chileno." - Palestra de Rodrigo Hidalgo Dattwyler

 
Observatório das Metrópoles - Núcleo Porto Alegre

Convida

Palestra: A CIDADE SEM LIMITES E O URBANISMO NEOLIBERAL. Considerações do caso chileno.

Palestrante:  
Prof. Dr. Rodrigo Hidalgo Dattwyler
 
Instituto de Geografia – PUC-Chile
dia 20 de agosto de 2015 (quinta-feira)
14:30 - Auditório do ILEA (Campus do Vale – UFRGS)
 



A proliferação das políticas neoliberais alterou profundamente como as cidades são imaginadas, percebidas, apropriadas e simbólica e materialmente transformadas pelos diferentes atores sociais, políticos e econômicos.

Os espaços da neoliberalização caracterizam-se por importantes mudanças na política urbana tais como a criação de redes de negócios dirigidas por parcerias público-privadas.

No Chile as reformas neoliberais começaram por um progressivo processo de privatização dos serviços (saúde e educação) e das empresas públicas. Esgotados os efeitos de criação e expansão dos mercados o modelo neoliberal requereu novos campos de atuação como a infraestrutura urbana básica e a produção da habitacional, inclusive a habitação social.


A adoção do "neoliberalismo urbano" tem diversas consequências: as afinidades entre ideologia e planejamento; a mobilidade de capital, tanto no planejamento como nas políticas urbanas; a emergência de novas formas de provisão das infraestruturas; os níveis de ação dos agentes privados; as dinâmicas de privatização; o novo mercado imobiliário e seus efeitos socioterritoriais: gentrificação, segregação, insegurança e  governança urbana.


Em sua palestra o professor Rodrigo Hidalgo fará uma leitura do processo de crescimento das principais cidades chilenas com ênfase nas suas consequências sobre o meio natural e os combinações institucionais dos principais agentes urbanos. A expansão urbana recente no Chile tem estreita relação com a financeirização à nível mundial ao mesmo tempo que na escala nacional se articula uma institucionalidade caracterizada com por seu caráter centralizador, excludente e tecnocrático.


Rodrigo Hidalgo é geógrafo pela PUC-Chile e doutor em Geografia Humana pela Universidade de Barcelona. É professor do Instituto de Geografia e coordenador do Pós-graduação em Geografia da PUC-Chile. Desenvolve seu trabalho de pesquisa no "Laboratório Urbano" desta universidade. Atualmente estuda os processos de expansão residencial nas regiões metropolitanas de Santiago e Valparaíso, seus efeitos socioterritoriais e as relações entre os agentes urbanos. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Lançado na FEE livro que aborda as transformações da Região Metropolitana de Porto Alegre

Fonte: FEE
 
“Porto Alegre: transformações na ordem urbana” foi lançado em evento nesta terça-feira, 05, no auditório da FEE, com a presença de pesquisadores de diferentes instituições. O título integra a coleção “Metrópoles: Território, Coesão e Governança Democrática”, resultado de cinco anos de pesquisa empreendida pela Rede Nacional Observatório das Metrópoles, do Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT). Este é o terceiro livro lançado de um total de 14 publicações sobre as regiões metropolitanas de Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Maringá, Belém do Pará, Recife, Fortaleza, Natal, Salvador e Baixada Santista. Todas as publicações trazem uma análise comparativa sobre as mudanças ocorridas nas regiões metropolitanas a partir dos anos 80 e estão disponíveis em formato digital, com download gratuito no site do INCT.

Palestrante do evento, o coordenador nacional do INCT Observatório das Metrópoles, Professor Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro,  destaca que um dos aspectos importantes das publicações, que reúnem diferentes e multidisciplinares grupos de pesquisa de todo o país, é partilhar um modelo de análise. O pesquisador fez questão de expressar um agradecimento à FEE pela parceria acadêmica, administrativa e estrutural desde o início do projeto, reunindo rapidamente diferentes talentos e capacidades. “A FEE é uma instituição que cumpre um papel importante para a pesquisa do País. Coisa rara na sociedade brasileira. Uma instituição republicana, que faz pesquisa de modo republicano e independente”, elogiou.

Um dos organizadores do livro no Núcleo de Porto Alegre, Professor Luciano Fedozzi explicou quais as questões, os recortes e as metodologias utilizadas para produzir os dez capítulos, com 21 autores. “Buscamos compreender os modelos de desenvolvimento em curso no país e o contexto econômico internacional e evidenciar as relações de território e economia, sociedade e política, na tentativa de explicar as mudanças econômicas, socioespaciais e políticas”, resumiu. Fedozzi chamou atenção para a importância e a complexidade da Região Metropolitana de Porto Alegre, composta por 32 municípios, com 37% da população do RS, 44% do PIB do Estado e situada como 4ª  Região Metropolitana do Brasil.

Professores Luciano Fedozzi (E) e Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro
Professores Luciano Fedozzi (E) e Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro

O geógrafo da FEE Iván Tartaruga, um dos autores do livro, explica que os estudos retratam as mudanças e permanências de Porto Alegre e sua Região Metropolitana nos últimos 30 anos, divididos em três partes: I. Dinâmica da metropolização brasileira e as transformações da RMPA; II. Mudanças na estrutura social e no território; e III. Representação eleitoral e governança. De acordo com Iván, A RMPA  difere de outras regiões metropolitanas por ainda manter um peso expressivo da indústria na sua atividade econômica e por ter uma classe média importante. Na parte da tarde, o evento prossegue com debate com os autores sobre questões como Estrutura Social, Demografia, Família e Mercado de Trabalho na RMPA.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

PORTO ALEGRE: transformações na ordem urbana




O INCT Observatório das Metrópoles (Núcleo Porto Alegre) promovem o lançamento do livro “PORTO ALEGRE: transformações na ordem urbana”. Organizado por Luciano Fedozzi e Paulo Roberto Soares, a publicação analisa as principais mudanças da metrópole mais meridional do Brasil nas três últimas décadas (1980-2010). Destaque para temas como reestruturação produtiva, caracterização sócio-demográfica, perfil sócio-ocupacional, mercado imobiliário e políticas habitacionais, mobilidade urbana e governança metropolitana.
O evento ocorrerá dia 5 de maio (terça-feira) no auditório da Fundação de Economia e Estatística (FEE) das 9:30 as 17:30 horas. Pela manhã ocorrerá a apresentação do livro e a palestra do Coordenador Nacional da rede Observatório das Metrópoles Luiz César de Queiroz Ribeiro (IPPUR/UFRJ). À tarde (14 horas) ocorrerá uma mesa redonda na qual serão apresentadas as principais conclusões do livro, além de um debate com representantes da METROPLAN e do Fórum Estadual pela Reforma Urbana (FERU/RS).
O livro “Porto Alegre: transformações na ordem urbana” integra a Coleção “Metrópoles: Território, Coesão e Governança Democrática” e representa para a Rede Nacional Observatório das Metrópoles a última etapa do Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT). O objetivo do projeto é oferecer a análise mais completa sobre a evolução urbana brasileira, servindo assim de subsídio para a elaboração de políticas públicas nas grandes cidades e para o debate sobre o papel metropolitano no desenvolvimento nacional.
O livro retrata as mudanças e permanências de Porto Alegre e sua Região Metropolitana nos últimos 30 anos. Porto Alegre, a metrópole mais meridional do Brasil, apresenta uma região metropolitana complexa composta por centros urbanos importantes economicamente e que produzem suas próprias centralidades.
O livro, elaborado por 21 autores, pesquisadores da UFRGS, da FEE e convidados, vinculados às linhas de pesquisa do Observatório das Metrópoles, está estruturado em dez capítulos divididos em três partes: I. Dinâmica da metropolização brasileira e as transformações da RMPA; II. Mudanças na estrutura social e no território; e III. Representação eleitoral e Governança.
As três últimas décadas de reestruturação econômica e social no Brasil impactaram de diferentes formas e intensidades nos espaços da região metropolitana, a qual emerge com uma nova configuração socioterritorial ao final do período.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Debate: Cemitérios industriais e tecnópoles: configurações e temporalidades na indústria na RMPA


Observatório das Metrópoles
Rede Interinstitucional e Multidisciplinar de Pesquisa
Instituto Latino-americano de Estudos Avançados

Convidam para o debate: 
Cemitérios industriais e tecnópoles:  configurações e temporalidades da indústria na RMPA
Expositores:
Dra. Ana Clara Fernandes (CAp/UFRGS)
Dr. Iván G. Peyré Tartaruga (FEE/RS)
Debatedor:
Dr. César Ávila Martins (PPG Geografia/FURG)
DIA 11 de Dezembro (quinta-feira) das 14 as 17 horas
Auditório do ILEA – Campus do Vale
O Observatório das Metrópoles - Núcleo Porto Alegre, Rede Interinstitucional e Multidisciplinar de Pesquisa (RIMP) vinculada ao ILEA/UFRGS convida para o debate "Cemitérios Industriais e Tecnópoles: configurações e temporalidade da indústria na RMPA". Trata-se da atividade de final de ano do Observatório das Metrópoles quando serão apresentadas duas teses de doutorado produzidas no Programa de Pós-graduação em Geografia da UFRGS e no âmbito das pesquisas do Observatório e defendidas no ano de 2014. A tese de Ana Clara Fernandes trata das áreas industriais abandonadas da cidade de Porto Alegre, tendo como foco o chamado "Quarto Distrito" da capital (bairros Navegantes e São Geraldo), analisando sua inserção (ou não) nas novas dinâmicas da metrópole, seja em nível local, seja na nova economia metropolitana globalizada. A tese de Ivan Tartaruga aborda os espaços de inovação da nova economia industrial do RS, tendo como foco os polos tecnológicos localizados especialmente em Porto Alegre e Vale do Sinos. As duas teses tratam dos espaços industriais e contribuem para a compreensão da metrópole e da região metropolitana na contemporaneidade. Como debatedor teremos o Professor César Martins da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), pesquisador CNPq na área de geografia econômica e geografia industrial.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Pelo direito à moradia digna


Caderno Didático: Política Habitacional e o Direito à Moradia Digna

O Observatório das Metrópoles disponibiliza em formato eletrônico o Caderno Didático: “Política Habitacional e o Direito à Moradia Digna”. O livro é resultado da parceria com a ONG Ação Urbana e a Fundação Bento Rubião e o apoio da Pastoral das Favelas para a promoção do Curso de Formação em Políticas Públicas e Direito à Cidade, realizado pela primeira vez em 2011 com o objetivo de discutir o Plano Local de Habitação de Interesse Social (PLHIS/RJ). Neste número do Caderno estão reunidos artigos que subsidiam o debate sobre PLHIS, a partir dos desafios colocados para uma gestão da cidade baseada nos princípios da reforma urbana.
(...)

Trecho do livro e link para baixar:

Por Regina Fátima Ferreira

O Programa Interdisciplinar de Formação de Agentes Sociais e Conselheiros Municipais é desenvolvido pelo Observatório das Metrópoles, desde 1999, sempre em parceria com organizações não governamentais, prefeituras e movimentos populares. A sua origem está diretamente ligada ao engajamento de professores e educadores populares comprometidos com a reforma urbana e a ampliação dos canais de participação e controle social sobre as políticas e programas públicos.

O Programa desenvolve-se, hoje, em várias cidades do Brasil, através da Rede Observatório das Metrópoles e parceiros, privilegiando o enfoque sobre as políticas de desenvolvimento urbano e seus espaços institucionais de participação, tendo como ponto de partida o conceito do Direito à Cidade. Fundado na concepção paulofreiriana de educação permanente, os cursos de formação são espaços de trocas entre educandos e educadores, que têm como referência a construção e o monitoramento de políticas e programas públicos que revertam as profundas desigualdades sociais que marcam as cidades e a sociedade brasileira.

Dessa forma, o Programa Interdisciplinar busca trazer elementos que qualifiquem a atuação de agentes sociais, lideranças e conselheiros nas esferas públicas de gestão (especialmente, nos conselhos de gestão de políticas públicas), bem como em processos participativos de planejamento das cidades. Com estes objetivos, no Estado do Rio de Janeiro vêm sendo realizados, regularmente, desde 1999, especialmente nos municípios da Baixada Fluminense, os cursos de capacitação e formação para conselheiros municipais, cujo foco central é o debate sobre Democracia, Participação Política e o Direito à Cidade.

Paralelamente, e de forma integrada, diferentes processos de formação têm tido lugar abordando temáticas como as do Orçamento Municipal, dos Planos Diretores, dos Planos de Saneamento e de Habitação de Interesse Social. Estes últimos ganharam destaque nos últimos anos, considerando os avanços ocorridos com a aprovação da Lei 11.124, em 2005, que estabeleceu como obrigatória para a adesão de estados e municípios ao Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social, a elaboração dos Planos Locais de Habitação de Interesse Social, o PLHIS.

Assim, em sintonia com a demanda pela qualificação de agentes sociais, lideranças e conselheiros para a discussão dos planos locais de habitação de interesse social, o Observatório das Metrópoles – IPPUR/UFRJ, em parceria com a Fundação Bento Rubião e a Ação Urbana e o fundamental apoio da Pastoral de Favelas, realizou, em 2011, pela primeira vez na cidade do Rio de Janeiro, um curso de formação visando o processo de discussão do Plano Local de Habitação de Interesse Social, origem deste caderno didático. O processo de elaboração do PLHIS/RJ vem sendo conduzido pela Fundação Bento Rubião, instituição com reconhecida experiência na temática da moradia no Rio de Janeiro e compromisso com a reforma urbana e a justiça social.


O curso visa fornecer aos participantes instrumental para (1) a compreensão mais ampla dos fatores geradores das desigualdades de acesso à moradia digna, com destaque para os programas habitacionais e a legislação urbana vigentes, (2) a leitura política dos interesses em disputa na cidade e das barreiras à implementação dos instrumentos de democratização do acesso à moradia e à cidade e (3) a formulação, pelos movimentos populares, de políticas e programas habitacionais que respondam às necessidades e desejos dos segmentos sociais de baixa renda, e a definição de estratégias para aprovação e implementação dessas políticas.

Neste caderno estão reunidos artigos que subsidiam o debate sobre o Plano Local de Habitação de Interesse Social, em processo de elaboração. Os textos estão organizados em módulos. O primeiro módulo “Direito à cidade e à moradia digna” introduz o debate sobre as cidades e os desafios colocados para uma gestão urbana baseada nos princípios da reforma urbana. O segundo módulo, “Política habitacional: financiamentos e programas”, aborda os principais programas de habitação de interesse social. No terceiro: “Políticas públicas urbanas e política habitacional” discute-se a necessidade de integrar a política habitacional com as demais políticas urbanas de saneamento ambiental, mobilidade urbana e, especialmente, com a política fundiária e os instrumentos previstos no Estatuto da Cidade que assegurem terra urbanizada para a habitação popular. No último módulo “Política habitacional: limites e possibilidades”, a partir de um breve diagnóstico da cidade do Rio de Janeiro, são apontados limites e desafios para o PLHIS/RJ e discutidas as soluções que vêm sendo gestadas por associações e cooperativas populares, na direção da produção social da moradia de forma autogestionária, como uma alternativa à mercantilização da moradia e das cidades.

Espera-se contribuir com este caderno para o debate sobre os Planos Locais de Habitação de Interesse Social e o fortalecimento da atuação de associações comunitárias, fóruns e redes para a discussão, elaboração, avaliação e controle de políticas públicas, na perspectiva da garantia do direito à moradia digna e à cidade. Por último, espera-se que este possa contribuir, ainda que de forma singela, para o exercício sistemático e permanente de reflexão sobre as questões que se referem à relação entre educação, cidade e democracia.

Para o download do Caderno Didático “Política Habitacional e o Direito à Moradia Digna”, acesse aqui.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Os Megaeventos Esportivos e o Direito à Cidade: uma agenda para o Conselho das Cidades

Por Orlando Alves dos Santos Junior
Professor do IPPUR/UFRJ
Membro do Conselho das Cidades (ANPUR – segmento entidades acadêmicas e profissionais)
Relator Nacional do Direito à Cidade – Plataforma Dhesca
Integrante da Rede Observatório das Metrópoles


Exposição proferida no Conselho das Cidades, no dia 07 de dezembro de 2011, em Brasília.

Essa exposição, dividida em cinco pontos centrais, está baseada fundamentalmente em dois subsídios:

Primeiro, a pesquisa nacional desenvolvida pela Rede Observatório das Metrópoles, denominada “Metropolização e Megaeventos Esportivos: os impactos da Copa 2014 e Olimpíadas 2016”, financiada pela FINEP, que tem por objetivo analisar os impactos das intervenções urbanas em todas as cidades-sedes vinculadas a esses dois eventos.

Segundo, a experiência da Missão da Relatoria do Direito à Cidade, ligada a plataforma brasileira de direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais. Na condição de relator nacional, realizamos essa missão no primeiro semestre de 2011, em torno das denúncias de remoções que estavam e continuam acontecendo no Rio de Janeiro, em decorrência das intervenções vinculadas à Copa do Mundo e das Olimpíadas. Durante a missão, foram visitadas diversas comunidades e realizadas diversas audiências em torno dos processos de remoções relacionadas às intervenções urbanas na cidade do Rio de Janeiro, vinculadas à Copa do Mundo 2014 e às Olimpíadas 2016.

O objetivo dessa exposição é apresentar algumas reflexões sobre o processo de intervenção urbana vinculado à Copa do Mundo, tendo em vista o seu caráter nacional (portanto, apesar da sua importância as Olimpíadas não serão objeto da minha intervenção), e levantar temas e questões visando à constituição de uma agenda de trabalho para o Conselho das Cidades.

Em primeiro lugar, é preciso destacar que o Conselho das Cidades está fazendo essa discussão tardiamente, tendo em vista que os projetos de intervenção nas cidades-sedes da Copa estão definidos e muitas das intervenções estão em curso. No entanto, apesar do atraso, essa discussão é estratégica e ainda há tempo de intervir, tendo em vista que grande parte dos projetos ainda não estão detalhados, a maior parte dos editais ainda não foi lançado, e muitas obras ainda não começaram.

Cabe chamar atenção que o projeto da Copa se relaciona diretamente com a política urbana em, pelo menos, três aspectos: (i) mobilidade urbana – ou seja, as intervenções vinculadas à mobilidade urbana; (ii) planejamento e gestão do solo – relacionado à re-estruturação urbana e os processos de valorização imobiliária decorrente das intervenções urbanas; (iii) moradia – sobretudo no que se refere às remoções decorrentes das intervenções urbana. Em outras palavras, o projeto da Copa é do interesse de todo o Conselho das Cidades e exige uma discussão coletiva que envolva o conjunto dos comitês técnicos, ou pelo menos os comitês de mobilidade, planejamento e gestão do uso do solo e habitação.

Por fim, apesar de não ser objeto da minha reflexão, também é fundamental sublinhar a importância da temática do esporte, tendo em vista que 25% dos recursos estão sendo investidos na construção ou reforma dos estádios – cabe lembrar que, excetuando o estádio Beira Rio, todos os demais estádios estão sendo reformados ou construídos utilizando financiamento público ligado ao BNDES. E que grande parte desses estádios estão sendo reformados através de contrato de parceria público-privada. Tudo indica que estamos diante da reconfiguração das práticas vinculadas aos esportes com estádios menores, elitização do público, estágios multifuncionais para recepção de megaeventos, e legitimação simbólica da reconfiguração urbana.

A reflexão em torno dos impactos dos megaeventos parte da hipótese geral de emergência de um novo padrão de governança urbana nas metrópoles brasileiras, caracterizado pelo que a literatura vem denominando empreendedorismo empresarial neoliberal. De uma forma esquemática, pode-se dizer que nesse padrão de governança o poder público assume como responsabilidade central a criação de um ambiente favorável aos negócios, no qual os grandes empreendimentos, os megaeventos e o marketing urbano teriam uma importância central nas estratégias de inserção econômica global, e na qual as parcerias entre os setores público e privado (PPPs) seriam uma das principais estratégias de promoção de serviços urbanos. Essa governança empreendedorista empresarial seria sustentada pela conformação de uma nova coalizão político-social – expressando uma aliança entre agentes econômicos e políticos e frações de classes sociais específicas, dependendo do contexto social de cada cidade. A noção de governança urbana aqui se refere às formas de interação entre governo e sociedade, ou mais precisamente, entre governo, mercado e sociedade.

Buscando contribuir para uma compreensão crítica das transformações urbanas em curso, a exposição está organizada em quatro pontos.

1. O projeto da Copa e o Processo de Reestruturação Urbana das Metrópoles Brasileiras

Os investimentos previstos para a Copa do Mundo de 2014 indicam que estamos diante de intervenções urbanas de grande magnitude, com grande impacto sobre a dinâmica urbana de todas as cidades-sedes. De fato, a maior parte dos recursos está alocada em mobilidade urbana, que representa cerca de 49% do total de investimentos. Do restante dos investimentos, aproximadamente 25% estão alocados na ampliação ou reforma da infraestrutura dos aeroportos e portos, e outros 25% na reforma ou construção dos estádios de futebol. Por fim, pouco mais de 1% dos investimentos está alocado em turismo e segurança.

Em síntese, a importância da Copa do Mundo parece estar menos ligada à realização de um evento em si mesmo (a Copa, as Olimpíadas), e mais ao processo de reestruturação da dinâmica urbana nas metrópoles brasileiras, legitimada e possibilitada pela realização desses megaeventos.


Sob o ponto de vista dos investimentos, pode-se dizer que a realização da Copa do Mundo 2014 (bem como das Olimpíadas 2016) tem como agente econômico protagonista o poder público, responsável ou pelos investimentos diretos ou pelo financiamento das intervenções vinculadas a esses megaeventos.

Tomando como referência a Copa do Mundo de Futebol, estão previstos pouco mais de R$ 17 bilhões entre financiamentos e investimentos, só do governo federal. Somando os recursos dos governos federal, estaduais e municipais, estão previstos mais de R$ 25 bilhões. Nesse ponto, cabe registrar que a Caixa Econômica Federal (CEF) e o Banco Nacional para o Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) são as duas principais instituições de financiamento do projeto (com aportes de recursos da ordem de 6,6 e 5 bilhões, respectivamente).

Em relação às cidades beneficiadas pelos investimentos, destaca-se o fato das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro receberem a maior parte dos recursos previstos no projeto. Juntos, essas duas cidades devem receber mais que R$ 8,6 bilhões.

Em seguida, em termos de volume de investimentos, destacam-se as cidades de Manaus (2,8 bilhões) e Belo Horizonte (2,5 bilhões).

As quatro cidades-sedes do Nordeste – Salvador, Recife, Fortaleza e Natal - recebem juntas 23% do total dos investimentos previstos.

Cabe registrar que, excetuando-se Curitiba, todas as demais cidades recebem investimentos superiores a 1 bilhão de reais.

Como pode ser observado, há uma relativa relação entre a divisão dos investimentos e a distribuição da população por região do país , com as regiões Norte e Centro-Oeste recebendo proporcionalmente mais recursos em relação a sua população e a Região Sul menos.


Percebe-se também que os governos estaduais e municipais, sem exceção, têm percebido a realização da Copa do Mundo como uma oportunidade de alavancar o desenvolvimento dos seus estados e municípios, reposicionando-os regionalmente ou nacionalmente, do ponto de vista do lugar atualmente ocupado na dinâmica econômica.

2. A Promoção de Políticas Redistributivas – o legado social – e a nova coalização empreendedorista empresarial

A análise dos projetos e das políticas públicas urbanas vinculadas a esses megaeventos esportivos, sobretudo aquelas vinculadas aos programas federais, parecem ser marcadas por componentes redistributivos, ou seja, parecem estar associadas aos investimentos em políticas, equipamentos e serviços urbanos - habitação, saneamento, saúde e educação – nas cidades, parte dos quais destinados as classes populares, o que tem sido identificado como legado social da Copa do Mundo.

Aqui é preciso considerar que o grau em que tais políticas são desenvolvidas é variável em cada localidade e parece estar fortemente ligado à natureza da coalizão empreendedorista empresarial que emerge em cada cidade brasileira.

No quadro das grandes desigualdades sociais que marcam o país, pode-se colocar como hipótese a necessidade desses investimentos em políticas urbanas para as classes populares como requisito para a legitimação do Estado enquanto poder público, e também da coalizão que sustenta essa nova governança urbana empreendedorista empresarial. De fato, não é raro observar nas grandes cidades brasileiras, que ao lado do intenso processo de remoção de comunidades compostas por famílias de baixa renda nas áreas revitalizadas, existem investimentos significativos na urbanização e regularização de favelas e assentamentos precários, sobretudo através do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. Também se observam importantes investimentos voltados à população de baixa renda, como a regularização fundiária de ocupações de imóveis públicos e o financiamento de empreendimentos habitacionais geridos pelos movimentos sociais de moradia (Programa Minha Casa Minha Vida – PMCMV/Entidades).

No entanto, seja qual for o caráter redistributivo dos investimentos, o projeto de cidade que está em curso parece aprofundar ou, pelo menos, corre o risco de aprofundar, o padrão de urbanização excludente que caracteriza a ordem urbana brasileira.

São diversos os indícios de especulação imobiliária e supervalorização das áreas urbanas que estão sendo objeto de intervenção por parte do poder público, em especial em torno dos projetos de mobilidade urbana. De fato, tudo leva a crer que os investimentos em mobilidade são os principais investimentos de reestruturação das cidades, incidindo sobre a sua dinâmica urbana na perspectiva da (re)valorização de certas áreas e na viabilização dos investimentos na expansão urbana das cidades. O setor imobiliário, dependo da cidade e da área de intervenção, trabalha com índices de valorização imobiliária que variam entre 100% a 1.000% (por exemplo, em Fortaleza).

Aqui, cabe levantar a importância da aplicação de instrumentos de captura da mais valia fundiária associada à valorização imobiliárias dessas áreas. Os instrumentos previstos no Estatuto da Cidade e nos Planos Diretores – em especial a instituição e demarcação de Zeis em vazios urbanos como a outorga onerosa do direito de construir - poderiam estar sendo aplicados tanto para conter a especulação imobiliária como para capturar parte da valorização imobiliária decorrente dos investimentos urbanos.

Cabe ao Conselho das Cidades monitorar a aplicação, pelas cidades-sedes da Copa do Mundo, dos instrumentos previstos nos planos diretores, recomendando a aplicação dos mesmos quando for o caso.

3. Uma nova rodada de mercantilização da cidade acionando processos de acumulação por espoliação: a difusão das cidades neoliberais no contexto brasileiro.

Mesmo que seja possível constatar intervenções urbanas destinadas à ampliação do acesso das classes populares aos serviços e equipamentos urbanos, são claros os indícios de que se está diante de uma nova rodada de mercantilização da cidade, caracterizada pela transformação de espaços, equipamentos e serviços urbanos desvalorizados – e, portanto, parcialmente ou totalmente desmercantilizados – em mercadoria, ou seja, em ativos inseridos nos circuitos de valorização do capital. Esse processo ocorre, seja pela transferência forçada de ativos sob o controle das classes populares para setores do capital imobiliário ou de serviços urbanos, seja pela criação de novos serviços e equipamentos urbanos que serão geridos pela iniciativa privada (por exemplo, na área do transporte, esporte e lazer). Em outras palavras, estar-se-ia diante de uma nova rodada de mercantilização e elitização da cidade, onde certas áreas passam a se constituir em mercadoria destinada as classes médias e altas que têm poder aquisitivo para pagar pelas habitações e serviços que serão oferecidos.

De fato, em quase todas as cidades onde estão ocorrendo intervenções urbanas vinculadas à Copa do Mundo estão ocorrendo ou estão previstas remoções. Efetivamente essas remoções representam a transferência de ativos sob a posse de grupos e classes populares (muitas das quais morando em áreas com situação fundiária irregular) para outros agentes econômicos e sociais que vão comprar e se apropriar desses ativos valorizados. Em geral, essas remoções têm ocorrido desrespeitando-se os direitos coletivos das famílias e comunidades moradoras das áreas de intervenção.

Considerando-se as configurações sociais das diferentes comunidades afetadas pelas intervenções urbanas, pode-se constatar remoções, ou seja, processos de transferência de ativos sob o controle das classes populares, no qual parcela da população (por exemplo, em situação de vulnerabilidade social e vivendo em uma habitação com alto grau de precariedade) poderia estar sendo beneficiada com a aquisição de um imóvel regularizado e em bom estado, mesmo em uma área distante; enquanto que outra parcela da mesma comunidade (com sua inserção social mais ou menos estabilizada em razão de vínculos estabelecidos com redes sociais e de trabalho formais ou informais) poderia estar sendo vulnerabilizada pela sua exclusão da área na qual organiza sua reprodução social. Dito de outra forma, o direito à moradia pode estar ao mesmo tempo sendo negado e promovido, desde que permita e não ameace o processo de mercantilização da cidade.

Nesse plano, é preciso levar em consideração que os despejos e as remoções ocorrem sob a legitimidade conferida pelo Poder Judiciário (que permite e determina as remoções) e da ordem pública, que operam no conflito entre, de um lado, os processos de mercantilização da cidade – promovido pelo poder público e pela coalizão de forças que sustenta a nova governança empreendedorista empresarial, acionando o discurso do interesse público em torno do desenvolvimento econômico e social – e, de outro, os processos de desmercantilização da cidade e de promoção do direito à moradia, encarnado pelos movimentos sociais organizados em torno da reforma urbana e do direito à cidade. Mas ambos os processos e discursos se expressam em políticas públicas e aparatos institucionais no interior do aparelho de Estado, apesar da lógica mercantil ser a dominante e hegemônica. Daí resulta a dificuldade de enfrentamento desse projeto.

Nesse ponto, cabe levantar a importância das intervenções urbanas nas cidades-sedes respeitarem o direito à moradia estabelecido na Constituição Brasileira e no Estatuto das Cidades, garantindo a permanência das famílias nas áreas por elas ocupadas, ou, em caso de absoluta necessidade de sua transferência para outras moradias, garantindo-se a discussão com as comunidades do projeto de reassentamento em área próxima, e o acesso à moradia digna através do procedimento chave-por-chave, ou seja, a saída das família para outro imóvel já construído e pronto para ser ocupado.

Cabe ao Conselho das Cidades definir critérios que devam ser cumpridos pelos governos estaduais e municipais como requisito para o recebimento de recursos do governo federal. Sem o respeito ao direito à moradia não pode haver repasses de recursos do governo federal.

4. A lógica da exceção na intervenção do Estado

Por fim, as intervenções em curso revelam a incapacidade do Estado em se pautar por critérios universalistas, centrados no objetivo da inclusão social dos diferentes grupos sociais à cidade, e a crescente adoção de um padrão de intervenção centrado na exceção, focado em certas áreas da cidade com capacidade de atração de investimentos, subordinando as políticas, implementadas de forma discricionária, aos interesses de grandes grupos econômicos e financeiros que comandam a nova coalizão empreendedorista empresarial. Os projetos determinam o que pode e o que não pode ser realizado (Copa do Mundo de Futebol e Olimpíadas aqui, um porto ou um teleférico acolá), as comunidades que podem permanecer e aquelas que precisam ser removidas, legitimados, em primeiro lugar, pelo discurso do desenvolvimento, e de forma subsidiária, pelo discurso da ordem, da ilegalidade fundiária ou do risco ambiental. Se existem direitos coletivos e sociais estabelecidos no Estatuto da Cidade, relativos à moradia e à participação nos projetos urbanos, estes serão aplicados de forma diferenciada segundo o grupo social envolvido em um determinado conflito.

No caso da Copa do Mundo de Futebol e das Olimpíadas, esse padrão de intervenção pela exceção fica bastante evidenciado na subordinação das ações do poder público às exigências dos organismos internacionais que coordenam esses megaeventos esportivos, a FIFA (Fédération Internationale de Football Association) e o COI (Comitê Olímpico Internacional).

5. Recomendações para o Conselho das Cidades

Tendo em vista o exposto, destacam-se quatro recomendações:

(i) a criação de uma instância no âmbito do governo federal para monitoramento das intervenções vinculadas à Copa do Mundo, com a participação do Conselho das Cidades; e a criação de um grupo de trabalho específico sobre o tema, no âmbito do Conselho das Cidades.

(ii) a necessidade de criação de critérios para a liberação dos recursos federais, associados ao respeito ao Estatuto da Cidade e ao direito à moradia, em especial, e a necessidade dos projetos serem discutidos com as comunidades envolvidas e com a sociedade como um todo; e a necessidade de respeitarem o direito à moradia digna das famílias afetadas pelas intervenções.

(iii) o monitoramento, pelo Conselho das Cidades, da aplicação, pelas cidades-sedes, dos instrumentos de captura da valorização fundiária previstos no Estatuto da Cidade e nos planos diretores, nas áreas que estão sendo objeto de intervenção.

(iv) a proposição de critérios para a aprovação dos projetos de mobilidade vinculados à Copa do Mundo, associados a integração dos modais – envolvendo ciclovias e calçadas – a acessibilidade em relação as tarifas, a acessibilidade dos deficientes físicos, e a priorização de investimentos em áreas ocupadas pelo população de baixa renda. Sugere-se que o Conselho das Cidades, através do Comitê Técnico de Mobilidade, e por meio da mobilização de pesquisadores e consultores - faça a análise de todos os projetos vinculados à mobilidade urbana nessas cidades.

(v) a análise dos impactos sociais gerados pelas intervenções já realizadas e medidas de reparação nos casos de violação do direito à moradia e do direito à cidade que forem identificados.

(vi) a realização de um seminário nacional promovido pelo Conselho das Cidades, dedicado à discussão do projeto da Copa e das Olimpíadas e de seus impactos sociais, urbanos, econômicos e ambientais.