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domingo, 29 de novembro de 2015

CARTA DE SOLIDARIEDADE À OCUPAÇÃO LANCEIROS NEGROS - PORTO ALEGRE/RS


                 Vimos por meio desta carta manifestar nossa solidariedade e apoio aos companheiros da Ocupação Lanceiros Negros, localizada no  centro da cidade de Porto Alegre,  a qual é articulada pelo Movimento de Luta dos Bairros e Favelas – MLB entidade que integra o Fórum Estadual de Reforma Urbana do Rio Grande do Sul – FERU | RS.

           Entendemos que a moradia é um direito humano e um componente fundamental para o cumprimento da função social da propriedade urbana e da cidade, conforme previsto na Constituição Federal, e que prédios públicos desocupados do Estado devem, na cidade, servir para moradia popular,  conforme Constituição Estadual em suas disposições transitórias (Art. 14 da Constituição Estadual).  Neste momento em que, o estado, mais especialmente a região metropolitana de Porto Alegre tem sido o palco de  vários despejos,  considerado pela ONU uma grave violação aos direitos humanos (Resolução nº 2004/2841 do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas)[1], é fundamental que possamos  reafirmar a necessidade de se avançar na proteção e na garantia de direitos fundamentais, como o direito à moradia,  e na  democratização da cidade,  especialmente dos espaços públicos e das áreas centrais a exemplo do que ocorre na já consolidada Ocupação Vinte de Novembro e como vem sendo pautado na luta da Ocupação Saraí, ambas localizada no centro de Porto Alegre.

               Desde o dia 14 de novembro, a Ocupação Lanceiros Negros traz vida, com as suas 98 famílias,  para um prédio vazio, de propriedade do Estado do Rio Grande do Sul localizado no centro de Porto Alegre. São famílias que, a exemplo de milhares de outras no estado do Rio Grande do Sul, não têm outras alternativas de moradia e são vítimas da exclusão social ocasionada pela pressão da especulação imobiliária e da incapacidade do Poder Público de prover moradia digna e da sua ineficácia em regular o mercado de terra, conforme definido na Constituição Federal e no Estatuto da Cidade (Lei 10.257/01).
Lanceiros Negros, Saraí, Vinte de Novembro nos levam a uma reflexão: Quem tem direito a morar no centro das grandes cidades? Quem tem direito aos equipamentos e serviços públicos, ali disponíveis? A cidade está a serviço de quem?

             Mesmo na luta por um direito constitucional e ocupando um prédio que não cumpre, com uma função social desde 2006, a Ocupação Lanceiros Negros está ameaçada de despejo, pois o Estado do Rio Grande do Sul já entrou com Ação de Reintegração de Posse.

            Entendemos que esta ação do Estado é muito contraditória, visto que recentemente o mesmo Estado, através deste Conselho instalou um Grupo de Trabalho para prevenir e mediar conflitos urbanos. Neste sentido, judicializar este conflito, sem ao menos dialogar com os moradores, é uma atitude que se choca frontalmente com o que tem sido deliberado nas conferencias e nas plenárias do Conselho Estadual das Cidades.  

               Importante destacar que o Grupo de Trabalho instituído pelo Decreto Estadual Nº 51.712/2014 e que tem por finalidade “buscar alternativas concretas para a solução de situações específicas relacionadas com a desocupação de áreas públicas e privadas urbanas no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul – Grupo de Trabalho dos Conflitos Fundiários”, vem na esteira de uma Política Nacional de Prevenção e Mediação de Conflitos Fundiários Urbanos[2], que diz ser papel, ação  e competência comum a todos os entes federados “promover o diálogo e a negociação entre as partes afetadas pelo conflito, instituições e órgãos públicos das três esferas da federação e entidades da sociedade civil vinculados ao tema, com o objetivo de alcançar soluções pacíficas nos conflitos fundiários urbanos, garantindo o direito à moradia digna e adequada e impedindo a violação dos direitos humanos”.

Requeremos:
 - A suspensão da Ação de Reintegração de Posse movida contra a ocupação Lanceiros Negros,  através da sinalização do governo do Estado do Rio Grande do Sul ao Poder Judiciário informando o seu interesse em abrir dialogo a partir do  Grupo de Trabalho instituído pelo Decreto Estadual Nº 51.712/2014;

 - O IMEDIATO estabelecimento do Grupo de Trabalho, pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul,  como o espaço para a mediação do conflito vivido pela Ocupação Lanceiros Negros;

- A realização de uma Audiência Pública, chamada pelo Grupo de Trabalho de Conflitos Fundiários urbanos do Conselho estadual das Cidades, para tratar sobre o tema dos conflitos fundiários urbanos envolvendo as ocupações de Porto Alegre, a sociedade civil e os representantes dos poderes executivo e legislativo  do município e do Estado bem como também do poder judiciário;

- O compromisso do governo do estado do Rio Grande do Sul com o Despejo Zero – nenhum despejo sem que existam respostas, em nível de políticas públicas, que garantam o direito à moradia das famílias.

 - A desapropriação por abandono, pelo Município de Porto Alegre/RS do prédio ocupado conforme prevê o art. 1276, caput do Código Civil Brasileiro.[3] 


[1] “A prática de despejos forçados é (considerada) contrária as leis que estão em conformidade com os padrões internacionais de direitos humanos, e constitui uma grave violação de uma ampla gama de direitos humanos, em particular o direito á moradia adequada.” Resolução nº 2004/2841 do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

[2] Resolução Recomendada nº 87/2009 do Conselho Nacional das Cidades.

[3] Art. 1.276. O imóvel urbano que o proprietário abandonar, com a intenção de não mais o conservar em seu patrimônio, e que se não encontrar na posse de outrem, poderá ser arrecadado, como bem vago, e passar, três anos depois, à propriedade do Município ou à do Distrito Federal, se se achar nas respectivas circunscrições.

§ 1o O imóvel situado na zona rural, abandonado nas mesmas circunstâncias, poderá ser arrecadado, como bem vago, e passar, três anos depois, à propriedade da União, onde quer que ele se localize.

§ 2o Presumir-se-á de modo absoluto a intenção a que se refere este artigo, quando, cessados os atos de posse, deixar o proprietário de satisfazer os ônus fiscais.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Ocupação no Rubem Berta compra terreno e impede reintegração de posse

Fonte: Sul21
Foto: Alina Souza/Sul21
Famílias vivem no local desde setembro, após passarem por reintegração de posse | Foto: Alina Souza/Sul21


Débora Fogliatto

A associação de moradores da comunidade Dois Irmãos, no bairro Rubem Berta, em Porto Alegre, tornou-se a legal proprietária do terreno que ocupa desde maio do ano passado. Mesmo com uma reintegração de posse marcada para esta terça-feira (17), o Grupo Habitasul, até então dono da área, concordou em negociar a compra do local. Em quatro dias, os moradores consolidaram a arrecadação do valor pedido pela empresa – não informado pelas partes.

A comunidade estava cercada pela Brigada Militar desde a noite de segunda-feira (16), devido ao despejo previsto para acontecer. Mas, ainda pela manhã, alguns dos líderes da associação foram até uma agênia bancária, onde depositaram o dinheiro. Depois, rumaram para o Fórum do Sarandi, onde oficializaram a transação. “Pelas 18h30, o pessoal comprou carne, botaram balão na ocupação, fizeram faixa, agradecendo a nós. A gente chegou e a festa estava armada, todo mundo chorando, se abraçando”, conta Josiane Zitto Carravetta, integrante da associação de moradores.

A compra diz respeito também à parte do terreno onde agora está a ocupação 20 de Setembro, ao lado da Dois Irmãos. Na primeira vez que ocuparam o local, as duas comunidades estavam juntas, mas após uma reintegração de posse, em setembro do ano passado, se dividiram. “A gente se uniu e chegamos lá. Nos avisaram da reintegração apenas dez dias antes, e quatro dias antes foi firmada a negociação. Tivemos três dias para correr atrás do dinheiro. Levamos R$ 10 mil só de moeda, cada um foi juntando o que podia pagar”, relata Josiane.

Transação antiga

Foto: Alina Souza/Sul21
Processo de regularização e acesso a serviços deve começar agora | Foto: Alina Souza/Sul21

Embora tenha se consolidado só agora, o processo de venda do terreno é antigo. Seis anos atrás, 42 pessoas compraram lotes de um homem, que os comprou diretamente da Habitasul. Na época, as tratativas foram intermediadas por esse comprador, mas, após um ano, o terreno não foi entregue aos compradores. A empresa afirmava que havia recebido apenas 20% do valor e rescindiu o contrato. Ao que tudo indica, o representante da associação teria vendido lotes para terceiros e “desaparecido”.

Cansados da espera, um grupo de compradores decidiu ocupar o terreno em maio do ano passado, junto a outros moradores que não haviam participado do processo inicial. Quando chegaram ao local, a Habitasul entrou com o processo de reintegração de posse, que chegou a ser cumprido em setembro. Ainda alegando ter pago parte do terreno, os moradores voltaram em setembro e permaneceram até agora.

Com a aprovação nesta segunda-feira (16) do projeto que qualifica ocupações como a Dois Irmãos e a 20 de Setembro como área especial de interesse social, os moradores agora aguardam o processo para a instalação de serviços, como luz e água. “Vamos trabalhar com calma, agora temos tempo para fazer tudo”, comemorou Josiane.
O diretor jurídico da Habitasul, Paulo Mallmann, explica que os moradores fizeram uma proposta que foi examinada pela empresa levando em conta o perfil socioeconômico dos ocupantes. “Achamos que por bem podíamos aceitar, até porque era um programa social”, ponderou. Apesar de ser uma empresa de empreendimentos imobiliários, a Habitasul não terá relação com o processo que acontecerá no terreno daqui em diante.

Moradores de ocupações se mobilizam e vereadores derrubam veto a projeto de AEIS

Fonte: Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21
Votação foi acirrada na Câmara de Vereadores| Foto: Guilherme Santos/Sul21
Débora Fogliatto

Moradores de diversas ocupações urbanas de Porto Alegre realizaram mobilizações na manhã desta segunda-feira (16). Durante a tarde, foi derrubado pela Câmara de Vereadores o veto do prefeito José Fortunati (PDT) ao projeto de lei que transforma 14 ocupações em áreas especiais de interesse social (AEIS). O PL, de autoria da bancada do PSOL, foi aprovado por unanimidade em dezembro do ano passado. Em fevereiro deste ano, no entanto, a Prefeitura anunciou que vetaria a proposta. Agora, a matéria voltou para a Câmara, que poderia optar por manter ou derrubar o veto.
Para protestar pela decisão de Fortunati, centenas de pessoas iniciaram uma manifestação por volta das 11h no Paço Municipal, onde cantavam “Somos o povo e esse veto nós vamos derrubar”. Homens, mulheres e crianças de todas as idades seguravam cartazes com dizeres como “Vereadores: derrubar o veto ou declarar guerra às ocupações” e criticavam o prefeito.
A necessidade de derrubada do veto é agravada pelo fato de uma das ocupações referidas, a Dois Irmãos, estar com reintegração de posse inicialmente marcada para a terça-feira (16). “É uma vergonha vetar esse projeto sabendo que no dia seguinte mulheres e crianças vão ser despejadas pela Brigada Militar”, argumentou Cláudia Favaro, arquiteta, urbanista e militante da luta pela moradia. Com a derrubada do veto ao projeto de AEIS, no entanto, a reintegração não deve ocorrer.
Criticando também a atuação da BM, os manifestantes rumaram ao Palácio Piratini, sede do poder estadual. Cantando “Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro”, cerca de 300 pessoas caminharam pela Borges de Medeiros e pegaram a Jerônimo Coelho, chegando à Praça da Matriz.
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Moradores de ocupações protestaram em frente à Prefeitura | Foto: Guilherme Santos/Sul21

A marcha era guiada por uma faixa dizendo “Eles foram contra 25 mil pessoas (com fotos de Fortunati e do vice-prefeito sebastião Melo). E o senhor, vereador?”. O bloqueio do trânsito foi facilitado pela Brigada Militar e pela EPTC.

Em frente ao Piratini, os manifestantes entoavam “A nossa luta é todo dia, moradia não é mercadoria” e “o povo unido jamais será vencido”. De lá, seguiram pela rua Espírito Santo e pela Avenida Loureiro da Silva, até chegarem à Câmara Municipal.

Tribuna Popular

Na Câmara, os manifestantes lotaram as galerias do Plenário, cantando “1, 2, 3, 4, 5, mil, queremos moradia para o povo do Brasil “. Em seguida, dois representantes do Fórum das Ocupações fizeram uso da Tribuna Popular para expor as reivindicações. Luciano Ilha pediu que seja feita “justiça para habitação em Porto Alegre”, destacando que não há política  “que sirva” para os moradores de ocupações. “O pessoal da Dois Irmãos não pode vir porque está com a polícia já lá nas portas. Não podemos perder mais essa ocupação, a moradia é nosso direito”, lamentou.

Em seguida, o coordenador do Fórum das Ocupações Juliano Fripp criticou o regimento interno da Câmara que exige que quem fale no Plenário use terno e gravata. “Eu queria estar vestindo essa camiseta aqui”, disse, mostrando a estampa do Fórum. Ele criticou Fortunati, não apenas por ter vetado o projeto, mas também por ter “chamado esse povo todo aqui de grileiro”. Ele pediu o apoio dos vereadores, que aprovaram por unanimidade o projeto, para a derrubada do veto. “Nós vamos ficar aqui na Câmara até que esse veto seja votado. E se ele for derrubado, vamos ficar até que mudem de ideia”, garantiu.

Foto: Guilherme Santos/Sul21
Fórum de Ocupações teve espaço na tribuna popular | Foto: Guilherme Santos/Sul21

A vereadora Fernanda Melchionna (PSOL), uma das autoras do projeto, colocou que Fortunati “não tem sensibilidade nem visão social para perceber que o movimento fez um planejamento que deveria ser feito pela prefeitura”.

Votação

Após mais de 4 horas de sessão, em que foram votados outros projetos, foi iniciada a discussão do PL 2265/14. Com forte pressão da população que lotou as galerias durante toda a tarde, a vereadora Fernanda Melchionna encaminhou a matéria, lembrando que a demanda surgiu em uma tribuna popular organizada pelo Fórum. “O projeto de AEIS não muda o direito à propriedade, apenas diz que ali vai ser designado para habitação popular. Outro mito sobre esse projeto é que teve problemas técnicos, isso é uma grande mentira. Aprovamos aqui em 2009 projeto que determinava AEIS. É um projeto inicial, questões técnicas são na área da regularização”, explicou.

A oposição começou a temer que os vereadores da base do governo retirassem o quórum da sessão, visto que as cadeiras começaram a ficar vazias dentro do Plenário. “Vejo algumas cadeiras vazias, e essa discussão ajuda a enxergar quem está de qual lado”, afirmou Alberto Kopittke (PT).  Já Carlos Comassetto (PT) lembrou que a declaração de AEIS segue o Estatuto da Cidade, que define que vazios urbanos devem ter como prioridade ser destinados à habitação.
Foto: Guilherme Santos/Sul21
População lotou galerias da Câmara | Foto: Guilherme Santos/Sul21
O vereador Alex Fraga (PSOL) lembrou que o prefeito e muitos vereadores tiveram campanhas patrocinadas por construtoras quando se elegeram. “É óbvio que ele (Fortunati) veta, está a favor da especulação imobiliária. Tem vereador que vai votar contra os interesses dos doadores, e isso é louvável”, afirmou.
Já o vereador Airto Ferronato (PSB) prometeu que o governo iria encaminhar em 30 dias um projeto que transforme em área de interesse social “todas as que forem possíveis”. A população, que ainda lotava as galerias, se indignou, dizendo que queria o projeto agora, e não em 30 dias. “Nós queremos isso aprovado hoje. Nós vimos o movimento do governo, as ações dos integrantes do governo indo em cada um dos vereadores da base cobrando voto”, denunciou Fernanda.
A votação foi acirrada: perto do fechamento do painel, ainda havia apenas 16 votos favoráveis à derrubada do veto. Delegado Cleiton (PDT) e Paulinho Motorista (PSB) deram dois votos decisivos, contabilizando 18. Antes de encerrar a votação, o presidente da Casa, Mauro Pinheiro (PT), votou, fechando os 19 necessários para aprovar o projeto e derrubar o veto de Fortunati.
O encerramento do painel foi seguido por uma festa na Câmara de Vereadores por parte dos moradores das ocupações e dos parlamentares que apoiaram o projeto. Enquanto isso, parte da base do governo se reuniu silenciosamente no canto do Plenário. A sessão foi encerrada a seguir, por volta das 19h20.
Vereadores que criaram e apoiaram o projeto comemoram após aprovação | Foto: Ederson Nunes/ CMPA
Vereadores que criaram e apoiaram o projeto comemoram após aprovação | Foto: Ederson Nunes/ CMPA

“É uma grande vitória para o movimento, que fez essa grande mobilização durante o dia todo e durante meses. É um passo importante, pois empodera ocupações e garante entrada de serviços”, afirmou Fernanda. Ela ainda cobrou que, agora, a Prefeitura forme um grupo de trabalho para regularizar as áreas. “Com certeza a presença massiva do povo garantiu a vitória, junto com a articulação dos vereadores”, afirmou.
Votaram “sim”: Dinho do Grêmio (DEM); Jussara Cony (PCdoB); Rodrigo Maroni (PCdoB); Delegado Cleiton (PDT); Dr. Thiago (PDT); Lourdes Sprenger (PMDB); Séfora Mota (PRB), Waldir Canal (PRB); Bernardino Vendrusculo (PROS); Paulinho Motorista (PSB); Tarciso Flecha Negra (PSD); Fernanda Melchionna (PSOL); Alex Fraga (PSOL); Alberto Kopittke (PT), Engº Comassetto (PT); Marcelo Sgarbossa (PT); Mauro Pinheiro (PT); Cláudio Janta (SDD).

Votaram “não”: João Bosco Vaz (PDT); Idenir Cecchim (PMDB); Pablo Mendes Ribeiro (PMDB); Professor Garcia (PMDB); João Carlos Nedel (PP); Kevin Krieger (PP); Mônica Leal (PP); Airto Ferronato (PSB); Mario Manfro (PSDB); Carlos Casartelli (PTB); Cassio Trogildo (PTB); Elizandro Sabino (PTB); Paulo Brum (PTB). Não votaram Reginaldo Pujol (DEM); Márcio Bins Ely (PDT); Nereu D’Ávila (PDT) e Guilherme Villela (PP).

As AEIS previstas no projeto são referentes às áreas das comunidades Bela Vista, Capadócia, Continental, Cruzeirinho, Dois Irmãos, Império, Marcos Klassmann, Moradas dos Ventos, Nossa Senhora, Oscar Pereira, Progresso, São Luiz, Sete de Setembro e 20 de Novembro.

Ocupações urbanas e insuficiência de políticas públicas são tema de seminário na Câmara

Fonte: Sul21

Seminário discutiu as ocupações irregulares e os mecanismos para revolver as questões de habitação|Foto: Guilherme Santos/Sul21 
Seminário discutiu as ocupações irregulares e os mecanismos para revolver as questões de habitação|Foto: Guilherme Santos/Sul21

Jaqueline Silveira

As ocupações urbanas foram um dos temas debatidos no Seminário A Cidade Inclusiva, promovido pela Comissão de Urbanização, Transportes e Habitação (Cuthab) da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, na terça-feira (17). Conforme o presidente da Cuthab, engenheiro Carlos Comassetto (PT), há na Capital 750 vilas em situação irregular tanto em áreas públicas – da União, Estado e município – quanto em privadas. Em 40 delas, há ações de despejo em andamento e que atingem entre 12 mil a 20 mil famílias. “Essas populações continuam desprovidas de serviços públicos”, disse o vereador, sobre a falta de transporte, creches, saneamento e postos de saúde. “Não é só um problema de posse de terra, é um problema social”, completou Comassetto. 
 
Defensora Pública, Adriana Schefer disse que há legislações que garantem a moradia, mas há dificuldades de aplicação|Foto: Guilherme Santos/Sul21

Coordenadora do Núcleo de Defesa Agrária e Moradia da Defensoria Pública, Adriana Schefer foi uma das palestrantes do painel Habitação e direito a terra. Ela ressaltou que há legislações – Constituição Federal, Estatuto das Cidades e Lei do Programa Minha Casa, Minha Vida -, que garantem o direito à moradia, porém há dificuldades para aplicá-las. “Não conseguimos efetivar essa legislação no mundo fático. Na verdade, o que falta é uma organização de competência. Hoje, no Brasil, não faltam leis para regularizar áreas”, observou ela.

Na opinião da defensora pública, um dos problemas é a centralização das questões de habitação no governo federal, defendendo a gestão compartilhada com Estado e municípios. Também, segundo Adriana, é preciso diferenciar ocupação de invasão. A primeira, esclareceu ela, envolve pessoas “que buscam efetivamente a moradia”. Já na segunda, o intuito dos invasores seria revender os terrenos, uma vez que muitos já teriam outro imóvel. “Não é tudo na vala comum”, frisou Adriana.

A defensora ressaltou que só o Programa Minha Casa, Minha Vida não é suficiente para atender a grande demanda de moradia. “Não podemos trabalhar a conta-gotas um problema que é bem maior, precisamos trabalhar os diplomas legais”, justificou Adriana, referindo-se à aplicação de mecanismos como da função social da propriedade e do IPTU progressivo, que podem resultar em mais áreas destinadas para novas moradias. A defensora pública considerou uma conquista a derrubada do veto da prefeitura, na última segunda-feira (16), pela Câmara de Vereadores da Capital, mantendo a lei que transforma 14 ocupações em áreas especiais de interesse social (AEIS). 
 
Diretor do Demhab, Everton Braz apresentou os projetos do Minha Casa, Minha Vida|Foto: Guilherme Santos/Sul21
Diretor-geral do Departamento Municipal de Habitação (Demhab), Everton Braz apresentou um panorama dos projetos do Programa Minha Casa Minha, Minha Vida elaborados pela prefeitura. Conforme ele, já foram entregues 1.768 moradias e há 18. 274 projetos em fase de aprovação ou de execução em diferentes regiões da Capital para a construção de mais casas. “O importante é que nós conseguimos organizar os terrenos públicos do município e temos a oportunidade de aproveitar bem o programa federal”, afirmou Braz. Sobre o mecanismo da função da propriedade social, ele destacou que o problema “esbarra na clareza da lei”. Para finalizar, o diretor enfatizou que “o pacto” para avançar na questão da habitação passa “pelo governo do Estado e federal”.

Último a falar no painel Habitação e direito a terra, o representante da Federação Gaúchas das Associações de Moradores Valério Lopes disse que se todas as moradias projetadas pela prefeitura saírem do
papel ocorrerá um grande avanço para amenizar o problema da habitação em Porto Alegre. “Se tudo o que foi colocado aqui se realizar, a Capital será a que mais construiu”, observou ele. No entanto, o representante alertou que muitos empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida encontram dificuldades, entre outros entraves, para obter o licenciamento ambiental. Lopes também reclamou da burocracia da Caixa Econômica Federal quanto à documentação exigida para encaminhar a moradia e dos recursos escassos do Conjunto de Regularização Fundiária. Braz comemorou, ainda, a manutenção da lei que transformou as ocupações em áreas especiais de interesse social. Para finalizar, ele adiantou que algumas das pautas em que a federação irá se focar pela frente são a criação de um Sistema de Desenvolvimento Urbano e o tema mobilidade urbana.
 
Da Federação das Associações de Moradores, Valério Lopes disse que há entraves que dificultam construir unidades do programa federal|Foto: Guilherme Santos/Sul21

Número das ocupações
750 vilas irregulares em áreas pública e privada
40 áreas com ação de despejo
Entre 12 mil e 20 mil famílias atingidas pelas áreas em disputa judicial
Números do Programa Minha Casa, Minha Vida na Capital
1.768 unidades entregues
3.670 moradias em fase de execução
14.604 unidades em fase de projeto
18.274 unidades em fase de provação do projeto ou de execução

quarta-feira, 11 de março de 2015

Ocupação no Bom Retiro ganha primeiro caso de usucapião coletivo de um prédio vertical no Brasil

Fonte: Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos



Ocupado em meados dos anos 1980, prédio localizado na Rua Solon, 934, no bairro do Bom Retiro, transformou-se no primeiro prédio vertical a ganhar uma causa de usucapião coletivo no país. Os moradores judicializaram a demanda em 2002, mas a primeira ação foi extinta sem julgar o objeto da ação porque o juiz entendeu que não era possível o reconhecimento da posse de forma coletiva, só individualmente.

A ação foi novamente proposta pela Associação de Moradores da Rua Solon por meio da assessoria jurídica realizada pelo Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, reforçando a finalidade do Estatuto da Cidade e fortalecendo a organização local.

Após dez anos de processo, o juiz da 1ª Vara de Registros Públicos de SP, desferiu sentença a favor da Associação. Esse, inclusive, é um dos diferenciais no caso: Conduzido em forma de autogestão, os moradores, organizados, que foram autores da própria ação ao longo dos anos.

Usucapião é a declaração do direito de propriedade por meio do exercício da posse. Esse direito é concretizado com mais segurança quando se consideram melhorias feitas no local e a efetiva evidência de cumprimento de função social. Mais do que considerar o fator de usucapião coletivo, o Estatuto da Cidade, recém aprovado na época da primeira ação, serviu – como raramente é – como fundamento para julgar o caso.

Além de reconhecer a moradia como direito fundamental e forma principal de uso e ocupação do solo urbanizado, o Estatuto da Cidade facilita ações coletivas ao permitir a representação processual por meio de associações legítimas e autorizadas pelos moradores. Desta forma, o conjunto de provas favorece todos os moradores, sem que cada um precise comprovar a origem e o tempo de posse.

No caso da Solon, a modalidade de Usucapião Especial Urbano possibilitou transpor a concepção individualista do processo judicial, uma vez que não havia como tratar cada área ocupada sem considerar o contexto do imóvel. Nesse caso, a posse será dividida entre todos os donos dos apartamentos, como decidido pela sentença.

Em 2002, a Prefeitura de São Paulo realizou atendimento emergencial às famílias que habitavam de forma muito precária – em barracos e no fosso do elevador –, desadensando e readequando as condições de moradia da ocupação, que passou de 70 famílias distribuídas nos oito andares do prédio para 42 famílias.

A professora da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – USP), Maria Ruth Sampaio, teve papel de grande importância em todo o processo ao longo dos anos. Além do apoio às famílias e das diversas intervenções com a participação ativa dos moradores, Maria Ruth viabilizou, por exemplo, o trabalho de reforço estrutural orientado por engenheiros especializados que colaborou na melhoria da segurança e da moradia de qualidade para as famílias.

Essa inédita conquista representa não somente a melhoria da qualidade de vida e garantia de moradia às pessoas que lutaram pela posse do imóvel durante cerca de trinta anos, mas também abre um importante precedente jurídico no que se refere ao uso de instrumentos legais como o Estatuto da Cidade e, principalmente, a decisão a favor dos ocupantes, postura pouco recorrente no judiciário. Todos ganham com esse desfecho a favor da luta pelo direito à cidade e à moradia digna.

quarta-feira, 12 de março de 2014

A questão da moradia em meio às transformações urbanas e a Copa em Porto Alegre

Fonte: RS Urgente

O problema da moradia situa-se num universo muito maior do que os causados pelos impactos das obras da Copa. As denúncias e manifestações deram visibilidade aos impactos das obras, mas para buscar conquistas de fato é importante observar a amplitude do problema da moradia e jogar luz sobre inúmeras outras lutas que estão ocorrendo nas cidades.

Por Lucimar F. Siqueira (*)


Av. Tronco – Morador procura sua casa na planta em assembleia realizada na comunidade em 2011.

Um dos maiores impactos sobre a vida da população que mora nos locais onde estão sendo implementadas obras para a Copa diz respeito à moradia. Qualquer discussão sobre os chamados “legados da Copa” ficam eclipsados diante da dimensão das consequências para os moradores das áreas carentes atingidos. Mas o quê, de fato, está envolvido nessa questão? Qual o seu contexto?

Neste momento é importante trazer outros elementos para a discussão e tentar envolver a sociedade neste debate. É preciso retirar a impressão de que a “não remoção” é solução ao problema da moradia, sob pena de não avançar na luta pelo direito à moradia adequada e o direito à cidade. O problema da moradia situa-se num universo muito maior do que os causados pelos impactos das obras da Copa. As denúncias e manifestações deram visibilidade aos impactos das obras, mas para buscar conquistas de fato é importante observar a amplitude do problema da moradia e jogar luz sobre inúmeras outras lutas que estão ocorrendo nas cidades. Temas como a regularização fundiária , urbanização de áreas carentes, moradia popular no centro das cidades , reestruturação de prédios abandonados para moradia , entre outras ações, devem ser valorizados nas discussões.

A questão habitacional e a Copa em Porto Alegre

Para falar sobre os impactos da Copa sobre a moradia em Porto Alegre é preciso, num primeiro momento, saber o que são as obras para a Copa. O Observatório das Metrópoles-Núcleo Porto Alegre, através do projeto Metropolização e Megaeventos, estabeleceu um recorte de análise sobre moradia levando em conta: a Matriz de Responsabilidades antes da retirada de algumas obras; obras que passam pelas Câmaras Temáticas (espaços da estrutura de governança criados para articular ações entre os entes federados, órgãos públicos, parceiros etc na implementação da Copa) e outras obras que foram fundamentais para a definição da cidade como sede dos jogos.

As obras da Matriz de Responsabilidade são todas aquelas de mobilidade urbana acrescentadas as obras do Aeroporto. Há esta distinção porque somente as obras no aeroporto ficaram a cargo da União, as demais foram escolhas dos municípios. Obras que passam pelas Câmaras Temáticas sobretudo aquelas relacionadas à liberação da área do entorno do Beira Rio e implantação da Subestação da CEEE; posteriormente, o entorno da Arena do Grêmio por ocasião da definição da arena como CT na Copa e o PISA como projeto considerado imprescindível para contemplar o quesito saneamento no momento da definição das cidades sedes.

Ainda, considerando estas intervenções foram apontadas obras com impactos diretos e indiretos sobre a moradia.

Impactos diretos: Quando o traçado da obra foi elaborado sobre área onde existem moradores. Neste caso o município deve incluir na documentação junto à entidade financeira o plano de liberação de área mostrando quais alternativas serão aplicadas para reassentamento dos moradores. O poder público municipal é o responsável pela implementação de medidas para todo o conjunto de moradores atingidos, seja através de reassentamentos com programas para habitação de interesse social, desapropriações ou indenizações (aluguel social deve ser usado como condição provisória em caso de emergência durante a construção das novas moradias).

Observando as obras da Matriz de Responsabilidade identificamos a Av. Tronco, entorno do Beira Rio e Aeroporto como as obras com impacto direto. Nesta condição encontram-se aproximadamente: 1.525 famílias (Av. Tronco), 70 famílias (entorno do Beira Rio), 1.479 (Vila Dique), 1.291 (Vila Nazaré) e 200 famílias (Vila Floresta), 1.680 (PISA) totalizando 6.245 famílias. É importante destacar que o PISA vem de uma experiência de reassentamentos subsidiado pelo BID e não faz parte das obras para a Copa diretamente. Porém, foi impulsionado por representar a alternativa encontrada para suprir a deficiência em saneamento identificada no “Relatório de Análise de Infraestrutura das Cidades Candidatas à Copa do Mundo FIFA Brasil 2014” realizado pela ABDIB (Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base).

Impactos indiretos: quando são identificados moradores de baixa renda na condição de ocupantes de áreas próximas a obras. Em Porto Alegre são todas as comunidades localizadas nas áreas onde foram concentrados recursos em intervenções para a Copa, desde as obras de mobilidade até as reestruturações de praças, entre outras intervenções. A área denominada Corredor da Copa por ser de circulação preferencial de turistas com maiores demandas por produtos e serviços para a Copa, segundo o DIEESE , limita-se ao norte pela Arena do Grêmio e Aeroporto e ao sul pelo Parque Linear do PISA, passando pelo Beira Rio, Av. Tronco e Centro.

Parte-se da hipótese de que o conjunto de intervenções tem um forte potencial para influenciar o mercado imobiliário e provocar a remoção de moradores para outras áreas da cidade uma vez que além de se localizarem nos Corredores da Copa estão próximos à pontos estratégicos que impulsionam vetores de mudanças em seu entorno como é o caso da Arena do Grêmio.

Para ter uma ideia, quem acompanha um pouco as notícias sobre a construção da Arena deve ter observado a mobilização empreendida por políticos e empresários porto-alegrenses em busca de recursos para o entorno da Arena do Grêmio. Cabe destacar que está na pauta, também, a questão da moradia como foi citado na notícia. Pergunta-se: que projeto habitacional estes grupos estão discutido para o entorno da Arena?

É bastante complexa a forma como o tema da moradia entra na pauta de discussões relacionadas às obras em Porto Alegre e a maneira como se metamorfoseiam às obras da Copa. Por isso é importante toda a atenção por parte de moradores, lideranças comunitárias, movimentos populares, sociais e pesquisadores.

É evidente que milhares de famílias que vivem nas comunidades carentes no eixo Rodoviária-Arena do Grêmio necessitam de moradia adequada. Mas precisa ser pensada observando a Política Habitacional do município sobretudo em relação ao direito de permanecer nos locais onde vivem. Além disso, é preciso considerar o fato de que fazem parte de um conjunto de centenas de assentamentos informais de Porto Alegre cujas demandas por moradia e urbanização aparecem reiteradamente nos espaços do OP, por exemplo. Então, cabe a pergunta: que critérios são adotados pelo município para tratar do assunto?

Para isso foi elaborado o PMHIS – Plano Municipal de Habitação de Interesse Social com o objetivo de atacar o déficit habitacional e melhorar as condições de vida das famílias, não para resolver o problema com os acessos à Arena do Grêmio.

Vila Hípica – Processo de urbanização da comunidade. Quando caiu o tapume,
o beco se transformou em rua.
As alternativas para o problema habitacional são diversas, desde que tenha recursos, e ao que tudo indica, o município de Porto Alegre não está tendo problemas para acessá-los. O município conta com 29 instrumentos disponíveis à Política Habitacional, uns mais consolidados do que outros, no entanto, o que assistimos nestes últimos anos foi a opção quase que exclusiva pelo caminho da produção habitacional do Programa Minha Casa Minha Vida – PMCMV e, no caso das remoções orientadas por cronogramas de obras, o farto uso de instrumentos emergenciais como o Bônus Moradia e Aluguel Social. Produzir moradia não é o problema. A questão é quando governos municipais não regulam o preço da terra urbanizada (que é sua obrigação) freando a especulação e vai em busca de terra barata para implementar os programas habitacionais distante das áreas urbanizadas. Garante a moradia violando o direito à cidade.

É preciso que o município retome urgentemente o Programa de Regularização Fundiária nas comunidades carentes. Mesmo sabendo que a propriedade não é garantia contra remoções (basta observarmos que há mais de 400 empenhos em curso para desapropriações na Tronco), esta é uma das formas da população ser integrada à cidade e ter acesso a serviços e infraestrutura básica. Não basta ter um programa robusto de saneamento como o PISA, por exemplo, passando próximo das casas se as comunidades não estiverem urbanizadas.

Vila Hípica – Construção da creche no projeto de urbanização.


O caso da Vila Hípica deve ser citado como exemplo pois 34 famílias foram realocadas para área ao lado do local de origem permitindo, assim, que toda a comunidade pudesse ser urbanizada. Vários outros casos históricos poderiam ser citados, como a comunidade Lupicínio Rodrigues, no Bairro Menino Deus, para exemplificar as diversas formas de melhorar as condições de moradia da população pobre sem que necessite ser reassentada distante dos locais onde vivem. Caso estivessem avançados os processos de regularização fundiária das comunidades envolvidas nas obras da Av. Tronco, não somente as famílias atingidas pelas obras estariam em melhores condições de moradia, como, também, seus vizinhos. Da mesma forma os moradores do eixo Rodoviária-Arena.

Para que esta situação possa mudar é importante, também, uma incidência maior do Conselho Municipal de Acesso a Terra e Habitação – COMATHAB. Apesar de toda a polêmica envolvendo as remoções das obras da Copa, do PAC e a implementação do PMCMV, não encontramos registros de manifestações públicas do conselho.

Paralelo ao processo de discussão sobre a implementação das obras para a Copa, identificamos várias mobilizações de moradores que lograram conquistas que merecem ser citadas. Embora ainda exista um longo caminho pela frente, cabe destacar a aprovação do projeto de criação das áreas de usos especiais para o Morro Santa Teresa (Áreas de Interesse Social, Ambiental e Cultural) ; a participação de lideranças comunitárias na indicação de terrenos para reassentamentos das famílias da Av. Tronco; o projeto de reforma de prédio na Rua Barros Cassal onde será implementado o Assentamento 20 de Novembro e as famílias de inquilinos da Vila Floresta que foram incluídas para serem atendidas no Programa Minha Casa Minha Vida, entre outros. Todos os casos foram resultados de duros processos de embates políticos, técnicos e sociais que ainda não se concluíram. Agora, espera-se que o poder público municipal e estadual dê celeridade aos processos e que mais rapidamente as milhares de famílias de Porto Alegre que precisam de moradia adequada sejam atendidas para que não sejam atingidas por futuras obras.

(*) Geógrafa, representante da AGB no Fórum Estadual de Reforma Urbana e membro da equipe do Observatório das Metrópoles Núcleo Porto Alegre.

Fotos: Lucimar F. Siqueira

domingo, 22 de dezembro de 2013

Deficit habitacional brasileiro - 2010. Pesquisa Fundação João Pinheiro

Brasil tem 7 milhões de domicílios com algum tipo de carência
Número representa 12% do total de residências e inclui não apenas moradias precárias, mas também total de moradores e valor do aluguel.
por Marcelo Brandão, da Agência Brasil
ANTONIO CRUZ/ABR
moradias precárias df
Moradias precárias no entorno do Distrito Federal
Brasília – Uma pesquisa feita pela Fundação João Pinheiro (FJP) e o Ministério das Cidades mostrou que, em 2010, existiam no país 6,94 milhões de habitações com algum tipo de carência, ou seja, 12,1% dos domicílios. Desse total, os estados de São Paulo, com 1,495 milhão, Minas Gerais, com 557 mil, e da Bahia, 521 mil, concentravam o maior número de unidades catalogadas.
Os números de São Paulo superaram os demais estados se explica, de acordo com Adriana Ribeiro, pesquisadora da FJP, pela própria característica populacional do estado. “São Paulo tem população em número superior às dos demais estados e, por isso, em termos absolutos, os indicadores são maiores”, disse.
Para o levantamento, foi considerado como déficit habitacional residências que apresentavam alguma dessas características: habitações rústicas ou improvisadas, coabitação familiar (soma de cômodos e famílias conviventes visando a uma residência exclusiva), gastos com aluguel superiores a 30% da renda familiar e locais onde havia mais de três pessoas morando no mesmo dormitório.
Em comparação com o total de domicílios existentes, os estados da Região Norte, além do Maranhão, no Nordeste, apresentaram os piores índices: Maranhão (27,3% de habitações com alguma carência), Amazonas (24,2%), Amapá (22,6%), Pará (22%) e Roraima (21,7%).
A pesquisa Déficit Habitacional Municipal no Brasil 2010 teve como base o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do mesmo ano. Os dados, de acordo com a presidente da FJP, Marilena Chaves, são importantes para que o Ministério das Cidades possa traçar estratégias para o setor.
“Com a apresentação deste novo produto, colaboramos para a formulação de políticas habitacionais baseadas em dados seguros e confiáveis”.
A pesquisa pode ser acessada no site da FJP, no endereço http://www.fjp.mg.gov.br/index.php/docman/cei/deficit-habitacional/216-deficit-habitacional-municipal-no-brasil-2010/file
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Veja aqui o histórico do déficit habitacional para os anos: 2000, 2007, 2008, 2009.

http://www.fjp.mg.gov.br/index.php/produtos-e-servicos1/2598-deficit-habitacional-no-brasil-3
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Pelo direito à moradia digna


Caderno Didático: Política Habitacional e o Direito à Moradia Digna

O Observatório das Metrópoles disponibiliza em formato eletrônico o Caderno Didático: “Política Habitacional e o Direito à Moradia Digna”. O livro é resultado da parceria com a ONG Ação Urbana e a Fundação Bento Rubião e o apoio da Pastoral das Favelas para a promoção do Curso de Formação em Políticas Públicas e Direito à Cidade, realizado pela primeira vez em 2011 com o objetivo de discutir o Plano Local de Habitação de Interesse Social (PLHIS/RJ). Neste número do Caderno estão reunidos artigos que subsidiam o debate sobre PLHIS, a partir dos desafios colocados para uma gestão da cidade baseada nos princípios da reforma urbana.
(...)

Trecho do livro e link para baixar:

Por Regina Fátima Ferreira

O Programa Interdisciplinar de Formação de Agentes Sociais e Conselheiros Municipais é desenvolvido pelo Observatório das Metrópoles, desde 1999, sempre em parceria com organizações não governamentais, prefeituras e movimentos populares. A sua origem está diretamente ligada ao engajamento de professores e educadores populares comprometidos com a reforma urbana e a ampliação dos canais de participação e controle social sobre as políticas e programas públicos.

O Programa desenvolve-se, hoje, em várias cidades do Brasil, através da Rede Observatório das Metrópoles e parceiros, privilegiando o enfoque sobre as políticas de desenvolvimento urbano e seus espaços institucionais de participação, tendo como ponto de partida o conceito do Direito à Cidade. Fundado na concepção paulofreiriana de educação permanente, os cursos de formação são espaços de trocas entre educandos e educadores, que têm como referência a construção e o monitoramento de políticas e programas públicos que revertam as profundas desigualdades sociais que marcam as cidades e a sociedade brasileira.

Dessa forma, o Programa Interdisciplinar busca trazer elementos que qualifiquem a atuação de agentes sociais, lideranças e conselheiros nas esferas públicas de gestão (especialmente, nos conselhos de gestão de políticas públicas), bem como em processos participativos de planejamento das cidades. Com estes objetivos, no Estado do Rio de Janeiro vêm sendo realizados, regularmente, desde 1999, especialmente nos municípios da Baixada Fluminense, os cursos de capacitação e formação para conselheiros municipais, cujo foco central é o debate sobre Democracia, Participação Política e o Direito à Cidade.

Paralelamente, e de forma integrada, diferentes processos de formação têm tido lugar abordando temáticas como as do Orçamento Municipal, dos Planos Diretores, dos Planos de Saneamento e de Habitação de Interesse Social. Estes últimos ganharam destaque nos últimos anos, considerando os avanços ocorridos com a aprovação da Lei 11.124, em 2005, que estabeleceu como obrigatória para a adesão de estados e municípios ao Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social, a elaboração dos Planos Locais de Habitação de Interesse Social, o PLHIS.

Assim, em sintonia com a demanda pela qualificação de agentes sociais, lideranças e conselheiros para a discussão dos planos locais de habitação de interesse social, o Observatório das Metrópoles – IPPUR/UFRJ, em parceria com a Fundação Bento Rubião e a Ação Urbana e o fundamental apoio da Pastoral de Favelas, realizou, em 2011, pela primeira vez na cidade do Rio de Janeiro, um curso de formação visando o processo de discussão do Plano Local de Habitação de Interesse Social, origem deste caderno didático. O processo de elaboração do PLHIS/RJ vem sendo conduzido pela Fundação Bento Rubião, instituição com reconhecida experiência na temática da moradia no Rio de Janeiro e compromisso com a reforma urbana e a justiça social.


O curso visa fornecer aos participantes instrumental para (1) a compreensão mais ampla dos fatores geradores das desigualdades de acesso à moradia digna, com destaque para os programas habitacionais e a legislação urbana vigentes, (2) a leitura política dos interesses em disputa na cidade e das barreiras à implementação dos instrumentos de democratização do acesso à moradia e à cidade e (3) a formulação, pelos movimentos populares, de políticas e programas habitacionais que respondam às necessidades e desejos dos segmentos sociais de baixa renda, e a definição de estratégias para aprovação e implementação dessas políticas.

Neste caderno estão reunidos artigos que subsidiam o debate sobre o Plano Local de Habitação de Interesse Social, em processo de elaboração. Os textos estão organizados em módulos. O primeiro módulo “Direito à cidade e à moradia digna” introduz o debate sobre as cidades e os desafios colocados para uma gestão urbana baseada nos princípios da reforma urbana. O segundo módulo, “Política habitacional: financiamentos e programas”, aborda os principais programas de habitação de interesse social. No terceiro: “Políticas públicas urbanas e política habitacional” discute-se a necessidade de integrar a política habitacional com as demais políticas urbanas de saneamento ambiental, mobilidade urbana e, especialmente, com a política fundiária e os instrumentos previstos no Estatuto da Cidade que assegurem terra urbanizada para a habitação popular. No último módulo “Política habitacional: limites e possibilidades”, a partir de um breve diagnóstico da cidade do Rio de Janeiro, são apontados limites e desafios para o PLHIS/RJ e discutidas as soluções que vêm sendo gestadas por associações e cooperativas populares, na direção da produção social da moradia de forma autogestionária, como uma alternativa à mercantilização da moradia e das cidades.

Espera-se contribuir com este caderno para o debate sobre os Planos Locais de Habitação de Interesse Social e o fortalecimento da atuação de associações comunitárias, fóruns e redes para a discussão, elaboração, avaliação e controle de políticas públicas, na perspectiva da garantia do direito à moradia digna e à cidade. Por último, espera-se que este possa contribuir, ainda que de forma singela, para o exercício sistemático e permanente de reflexão sobre as questões que se referem à relação entre educação, cidade e democracia.

Para o download do Caderno Didático “Política Habitacional e o Direito à Moradia Digna”, acesse aqui.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

5º Encontro das Cooperativas Habitacionais Autogestionárias



DATA: 26.10.2013   Bento Gonçalves - RS 
LOCAL: Salão de Festas da Cooperativa Habitacional Serrana
(Rua Carlos Dreher Neto 805 - Bairro Vila Nova)
Das 13h30 às 17h30

Inscrições gratuitas:
Envie seu nome, fone, endereço eletrônico e entidade
(se representa alguma) para suporte@coohabras.org.br

Destaques da programação:
Histórico, desafios e potencialidades do cooperativismo habitacional autogestionário da Serra Gaúcha - Airton Minuscoli (pioneiro no Brasil) e Gisélia Righesso (engenheira civil que ajudou nos primeiros projetos arquitetônicos)
Desafios e avanços da replicação e expansão do cooperativismo habitacional autogestionário no Brasil - Coohabras
Histórico e situação atual do cooperativismo habitacional no Uruguai - FUCVAM

Mais informações:
Facebook: 5 Encontro das Cooperativas Habitacionais
Ivo Dickmann: pedagogico@coohabras.org.br
(49) 8855-7566 Claro
(49) 8404-9059 Oi

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Porto Alegre e as violações do Direito à Moradia

Fonte: Observatório das Metrópoles
GT sobre Moradia - visita à Vila Santo André, Porto Alegre
GT sobre Moradia - visita à Vila Santo André, Porto Alegrecrédito Lucimar Siqueira 


O Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) realizou visita, nos dias 25 e 26 de setembro, em Porto Alegre com o propósito de receber e monitorar denúncias de violações de Direito Humano à Moradia por conta das obras vinculadas à Copa de 2014. Durante visita a comunidades envolvidas em processos de remoção como Vila Santo André, Vila Dique, Vila Nazaré e Morro Santa Teresa, o grupo de trabalho recebeu relatório o qual aponta que Porto Alegre, assim como outras cidades-sedes, reafirma o modelo de “cidade-mercadoria” baseado numa matriz de projetos que visam a “qualificação urbana”, mas que sob o discurso do desenvolvimento violam direitos humanos e ferem princípios constitucionais.

GT sobre Moradia

O Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, criou o GT sobre Moradia Adequada após denúncias de supostas violações de Direitos Humanos no País. Desde então, o grupo de trabalho tem promovido visitas às cidades-sedes da Copa do Mundo de 2014 com o objetivo de levantar dados e informações pertinentes à moradia adequada para serem levadas ao conhecimento de autoridades competentes para providências.

Nos dias 25 e 26 de setembro, foi realizada missão em Porto Alegre com o propósito de receber e monitorar denúncias de violações, além de elaborar e propor diretrizes para efetiva garantia do direito à moradia. O Grupo de Trabalho foi composto por Clarissa Rihl, coordenadora-geral do CDDPH; Nelson Saule, POLIS/FNRU; André Sousa, Fórum de Entidades de Direitos Humanos/Comitê Copa; Maria Cristina, Defesa Civil; Mirna Quinderé, Secretaria Nacional de Habitação/MCidades; Regina Silva, Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República; Bartiria Costa, Conselho das Cidades; Júlia Shirmer, Secretaria de Direitos Humanos; Neuza Gomes, Ministério do Meio Ambiente, entre outros.

GT sobre Moradia (Secretaria Direitos Humanos) visitando a Vila Santo André, Porto Alegre.
Denúncias de violações

Durante a visita, a Comissão Porto Alegre – formada pelo Comitê Popular da Copa Cristal, Fórum Estadual de Reforma Urbana/RS e Observatório das Metrópoles-Núcleo Porto Alegre –, entregou ao GT o “Relatório sobre a situação do Direito à Moradia e à Moradia na Cidade de Porto Alegre: contexto no marco da Copa do Mundo de 2014” no qual denuncia as várias violações na capital do Rio Grande do Sul e a consolidação de um modelo de cidade-mercadoria.

“O Brasil avançou muito nas últimas décadas na conquista de direitos sociais, como o Estatuto da Cidade, entre outros mecanismos. E, apesar de existirem recursos via projetos federais como o MCMV e o PAC, o que se vê ainda são comunidades sendo excluídas. Isso ocorre porque o projeto de cidade que prevalece no País é o da cidade-mercadoria. Nele, o poder público busca qualificar o urbano para que todos lucrem mais, por isso busca o diálogo primeiro com o empresariado, construtoras, comerciantes. E daí busca conformar os espaços da cidade para que esses atores possam atuar”, explica a pesquisadora Lucimar Siqueira, integrante do Observatório das Metrópoles.

Lucimar argumenta ainda que, no caso de Porto Alegre, as comunidades removidas têm criticado os locais de reassentamento que estão cada vez mais distantes, mais periféricos no território da cidade, enquanto que os espaços que são liberados têm sido usados para a especulação imobiliária. “Outro problema em Porto Alegre é o da informação. Muitas famílias reassentadas não sabem direito como será o processo e argumentam que antes de receber as chaves da nova moradia precisam assinar um contrato com a Prefeitura. Depois, são obrigadas a pagar um valor mensal pela habitação. No entanto, isso não é transparente, e muitas vezes a família acaba se endividando e perdendo a sua casa”, argumenta.

A seguir, os principais pontos do Relatório da Comissão Porto Alegre, com a descrição das comunidades envolvidas em processos de remoção.

Os casos relatados abarcam investimentos e ações das três esferas de governo, mas mais especificamente da esfera municipal, visto que é dela a responsabilidade pela gestão do território. Neste sentido, chama-se a atenção para a forma de conduzir a implementação dos projetos de qualificação urbana, que sob o discurso do desenvolvimento violam direitos humanos e ferem princípios constitucionais.

EMPREENDIMENTOS E IMPACTOS SOBRE MORADIA

1) ARENA DO GRÊMIO: VILA SANTO ANDRÉ E OUTRAS COMUNIDADES

VILA SANTO ANDRÉ – Localizada Av. dos Estados – Bairro Humaitá - ao lado da Empresa Zamprogna, muito próximo a Arena do Grêmio, na Vila Santo André residem aproximadamente 700 famílias há mais de 40 anos. Neste tempo a demanda da comunidade sempre foi por infraestrutura, garantia das posses e equipamentos públicos. As moradias, também são bastante precárias. Mesmo diante desta demanda reprimida há décadas, a principal intervenção que se faz presente na região e que não tem caráter de utilidade pública é a da construção da Arena do Grêmio Futebol Portoalegrense. O Empreendimento, da OAS, engloba, além do Estádio, torres residenciais, área de exposição com mais de 15.000m², estacionamento para 3.000 veículos, Shopping Center e hotel. O empreendimento chaga a Porto Alegre como um novo bairro, planejado e em local estratégico próximo à Rodovia do Parque (BR 448), da ponte estaiada sobre o Rio Guaíba, aeroporto, trensurb, além da conexão direta com a região metropolitana via BR 116.

A área foi doada pelo Governo do Rio Grande do Sul para a Federação dos Círculos Operários do Rio Grande do Sul que, por sua vez, incluiu no negócio com a OAS. Por outro lado, o município de Porto Alegre oficializou a doação da área onde hoje está o estádio do Grêmio, Bairro Azenha, e este também incluiu nas negociações a Construtora OAS. Neste local já foi lançado pela construtora outro empreendimento de porte e caráter imobiliário, denominado “Residencial Azenha”. Este empreendimento, como o anterior, demandou alteração normativa (índices e zoneamento) no Plano Diretor de Porto Alegre.

Neste contexto, observa-se o Bairro Humaitá como um dos focos do mercado imobiliário de Porto Alegre. Essa região, que além da Vila Santo André, apresenta outras comunidades de baixa renda como a Vila Liberdade, Beco X e Vila Esperança que há muitas décadas lutam pelo direito à moradia através da qualificação das suas casas, da qualificação urbana de suas comunidades e da garantia das suas posses. No entanto, essas comunidades estão ameaçadas de expulsão – a já conhecida “expulsão branca” –, visto que não se observa políticas públicas traduzidas em ações e investimentos em moradia, regularização fundiária e qualificação urbana direcionada à garantir “cidade” para essas famílias. Os recursos disponibilizados estão focados nas grandes obras, cabendo para moradia somente aqueles que servem para “limpar o espaço para o capital”, ou seja, quando se trata de reassentamento.

Apesar da Arena do Grêmio não fazer parte das obras para a Copa, é o desencadeador do processo de valorização imobiliária cuja infraestrutura viária está sendo provida através dos financiamentos para a Copa. A obra presente na Matriz de Responsabilidade é a implementação do Corredor Av. Voluntários da Pátria e Terminal São Pedro (RS-A.07/Ad-02). O projeto (RS-A.07/Ad-02) previa somente a duplicação da avenida, mas com a aprovação de novos recursos ocorreu a inclusão de outros itens que qualificam o entorno da Arena e levam infraestrutura até os empreendimentos projetados e em construção.

AEROPORTO: VILA DIQUE, VILA NAZARÉ E FLORESTA

As obras do aeroporto constam das obras para a Copa financiadas pelo Governo Federal. As obras do Aeroporto Internacional Salgado Filho, no entanto, incluem ações relacionadas entre Governo Federal (INFRAERO), o Município de Porto Alegre e o Estado do Rio Grande do Sul.

As comunidades atingidas pelas obras correspondem a projetos distintos da ampliação do aeroporto, conforme segue abaixo.

VILA DIQUE E LOTEAMENTO BERNARDINO DA SILVEIRA (REASSENTAMENTO):

Envolvidos Governo Federal (INFRAERO) e município de Porto Alegre. Ao município coube a retirada das famílias das áreas de incidência direta das obras. São atingidas diretamente 1.479 famílias. O projeto de reassentamento foi apresentado em conjunto com a Vila Nazaré. Ao todo serão transferidas 2.770 famílias considerando as duas comunidades. O projeto registrado junto à Caixa Econômica Federal chama-se “Produção habitacional para viabilizar urbanização Vila Nazaré e área de Intervenção Vila Dique e Vila Nazaré” cujo contrato de repasses é o de nº218814-40/2007. O projeto foi ajustado duas vezes até 26/02/2010 e adaptado ao Programa MCMV Urbanização de Assentamentos Precários.

Para a Vila Dique foi definido o empreendimento denominado Loteamento Bernardino da Silveira. O loteamento localiza-se na Av. Bernardino da Silveira, 1915, no Bairro Rubem Berta. A transferência iniciou-se em outubro de 2009. Em janeiro de 2010 a obra já sofria auditoria do Tribunal de Contas da União na qual foram identificadas várias irregularidades. Até julho de 2012 foram transferidas 798 famílias. Em setembro do mesmo ano ainda faltam ser transferidas mais de 600 famílias. Ou seja, transcorridos quase 3 anos foram transferidas praticamente 50% das famílias.

Exemplos de problemas no reassentamento:

- Ausência de escola e creche. O posto de saúde foi inaugurado, porém atende de forma precária a população.

- Baixa qualidade das construções.

- Portadores de necessidades especiais instalados em casas não adaptadas.

- A distribuição de algumas casas adaptadas encontram-se isoladas dos demais moradores. Dada a necessidade do afastamento dos cuidadores, moradores cadeirantes permanecem distantes de seus vizinhos e sem assistência.

- Moradores acumulam dívidas referentes aos custos com a nova casa e já ocorrem despejos - O DEMHAB não repassa os contratos para os moradores.

- Aproximadamente 150 famílias viviam da coleta de material reciclável e utilizavam carrinho ou carroça para tal atividade. Aguardam até agora a instalação de um estábulo prometido pelo DEMHAB para que consiga retomar as atividades.

- Mais de 600 famílias permanecem no local de origem (Vila Dique) onde muitos serviços foram retirados deixando a população com mais dificuldades de acesso à energia elétrica, água, coleta de lixo e atendimento no posto de saúde.

- Permanecem problemas relacionados ao sistema de esgoto. Em junho de 2012 crianças do Loteamento Bernardino da Silveira continuavam brincando em meio ao esgoto a céu aberto. A Vila Dique foi, também, atingida pelas obras de prolongamento da Av. Severo Dullius registrada na Matriz de Responsabilidades RS-A.08.

VILA FLORESTA: O grupo de famílias de inquilinos da Vila Floresta, situada na cabeceira leste do aeroporto Salgado Filho, está sendo mantido no local de forma precária até agora, apenas em virtude de um acordo provisório celebrado com a Infraero, no CEJUSCOM da Justiça Federal. As 42 famílias, que estavam resistindo, conseguiram negociar com a Infraero para a transferência da maioria delas para um condomínio no bairro Camaquã – via MCMV. Isso se deve a uma intervenção oportuna do Cejuscon da Justiça Federal, que conseguiu negociar essa transferência com a Infraero, a Secretaria de Habitação do Estado, o Demhab e - note-se bem - a participação ativa da comunidade em todo o processo de discussão das alternativas.

Essas famílias nunca foram ouvidas durante o processo de desapropriação da área onde vivem, apenas os proprietários dos imóveis onde moravam. Desde 2009 tentavam buscar alguma solução e recentemente foi apresentado pelo o Estado e Município uma proposta formal de realocação para o Residencial Camaquã (MCMV), inclusive sendo organizado ônibus para as famílias da Vila Floresta conhecerem seu novo local de moradia prometido. Assim, as famílias concordaram com a realocação.

Ocorre que, recentemente o Diretor Geral Jorge Dusso, DEMHAB/município, novamente coloca em estado de insegurança o direito à moradia daquelas famílias, alegando que o assentamento Residencial Camaquã foi prometido para a Vila Carandiru (antiga ocupação do prédio IPE), não há espaço para as duas, atentando assim novamente pela segurança das famílias de baixa renda da cidade.

ENTORNO DO ESTÁDIO BEIRA RIO

MORRO SANTA TERESA: Morro Santa Teresa - Quatro Vilas (Gaúcha, Ecológica, Padre Cacique, União- Prisma) abrigam cerca de 1.600 famílias, há mais de 30 anos, na área que é propriedade da FASE, do Governo do Estado. Em 2010, o PL388 visava privatizar a área de 74 ha. Os moradores, aliados à sociedade civil organizada, montou uma mobilização, que fez o Governo recuar, e mantém-se num Movimento que defende a regularização fundiária das vilas, a defesa da preservação ambiental e a reestruturação da FASE ali. O atual governo assumiu essas demandas, através do Decreto nº 48.029, de 17 de maio de 2011, e criou pelo Decreto nº 49.256, de 21 de junho de 2012, um GT para a sua gestão, que não avança. Embora sem definição de diretrizes, a SEHABS licitou recentemente os levantamentos topográficos e cadastramento socioeconômico e outros, visando a regularização fundiária. Mas, ao mesmo tempo, é anunciada para o local a construção de um Centro de Eventos, com grandes ambientes e estacionamento, inconcebível sem devastar a natureza, o que é incompatível com aqueles decretos. O temor é que a Prefeitura possa remover expressa ou paulatinamente os moradores. Hoje, as comunidades já protocolaram pedido de Concessão de Uso Especial para fins de moradia junto à FASE e requerem a demarcação em suas comunidades como ZEIS/AEIS. Vivem ainda em condições precárias quanto ao saneamento básico, energia elétrica, água e recolhimento de lixo. Sofrem dificuldade de acesso e situações de risco.