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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

LUTA PELA MORADIA OCUPA O PALCO DO PALÁCIO DOS FESTIVAIS EM GRAMADO E LEVA DOIS KIKITOS!!!

"Bruno Carboni - Melhor Diretor
Tiago Bello- Melhor Desenho de Som


PARABÉNS!!! MUITO MERECIDO!!

O TETO SOBRE NÓS, do gaúcho Bruno Carboni — trouxe a política para o primeiro plano no Palácio dos Festivais. O cineasta e equipe subiram ao palco na companhia de ativistas do Movimento dos SEM-TETO, que ocupam, sob constante ameaça de despejo, o SARAÍ. Além de defender o assentamento definitivo dos SEM-TETO DO SARAÍ, o diretor do filme — um HIBRIDO entre documentário e ficção — cobrou políticas públicas para o audiovisual no Rio Grande do Sul. O curta quebra com as tradicionais narrativas sobre a luta dos SEM-TETO e aposta no sensorial e na força dos corpos, sons e desejos." (Ceniriani Vargas da Silva).

Fonte: Lutadores Urbanos



 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Fórum da Reforma Urbana cobra da PGE parecer sobre a Ocupação Saraí

Fonte: Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
O procurador D’Elia (E) se reuniu com representantes do Feru|  Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Débora Fogliatto
Nesta manhã de sexta-feira (21), o Fórum Estadual de Reforma Urbana (Feru/RS) reuniu-se com diversas autoridades para discutir sobre as situações de ocupações, despejos e violações de direitos em Porto Alegre e região metropolitana. Uma das reuniões ocorridas foi na Procuradoria Geral do Estado (PGE), onde um grupo conversou com o procurador Carlos César D’Elia, presidente da Comissão de Direitos Humanos, sobre a situação do prédio da Ocupação Saraí.
O prédio se tornou símbolo de luta pela moradia quando foi decretado área de interesse social, sendo desapropriado pelo governo do estado em julho deste ano. O decreto aconteceu após quatro ocupações no imóvel que estava abandonado há décadas e após tentativas de negociação com o proprietário. Uma campanha movimentou as redes sociais e as ruas da cidade pedindo que o prédio fosse desapropriado pelo governador.
Após o decreto, o processo foi para a Procuradoria, que deve avaliar a situação e iniciar um processo judicial. “Dependemos de parecer da PGE, e como temos preocupações com mudança de governo, gostaríamos de deixar coisas encaminhadas”, destacou Ceniriani Vargas, coordenadora estadual do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM).
Antes de se reunir com o procurador, o grupo conversou com o secretário de Habitação, Marcel Frison, que afirmou ser possível realizar o depósito judiciário para seguir com a desapropriação assim que o parecer estiver completo.
O procurador D’Elia relatou que o parecer está com o Procurador-Geral Adjunto para Assuntos Jurídicos, Bruno de Castro Winkler. Ele disse que está tentando contatá-lo durante a semana, mas que o procurador está em viagem. “Por estar com ele acredito que signifique que está sendo dada prioridade para isso. Entendemos a angústia, pois várias movimentações que começaram a ser feitas querem ser garantidas com a troca de governo”, afirmou.
D’Elia se comprometeu a tentar se reunir com Winkler e com o Procurador-Geral Carlos Henrique Kaipper para levar a demanda. Por sugestão de Ceniriani, concordou em tentar reuni-los com a Secretaria de Habitação (Sehabs) para facilitar o diálogo. Ele também tentará conversar com a equipe de transição do governador-eleito sobre a pauta.
A assessora da comissão, Beatriz Rosane Lang, que também é integrante do Movimento Estadual de Direitos Humanos e do Conselho de Direitos Humanos, sugeriu levar a demanda para esse órgãos. Ela convidou o Feru para participar de uma audiência que será realizada no dia onze de dezembro.
Foto: Juliano Antunes/Sul21
Prédio da Saraí foi desapropriado em julho | Foto: Juliano Antunes/Sul21
Ocupação Pinheiros
Outra demanda trazida foi a ocupação Pinheiros, em Eldorado do Sul, que também foi visitada pelo Feru nesta quinta-feira (20). A área, onde vivem cem famílias, foi considerada de preservação ambiental, o que os força a sair do local. “Nós respeitamos área que estava acordada com Prefeitura, mas mudou os limites do parque. Claro que nem teríamos entrado se soubessemos que era área de preservação”, relatou Ceniriani.
Ela contou que o Movimento tentou autorização para instalar estruturas provisórias de saneamento, água e luz, mas por enquanto não obteve sucesso. A pauta também foi levada à Sehabs, que se comprometeu a participar de uma reunião do grupo de trabalho formado na Assembleia Legislativa sobre a comunidade. O procurador D’Elia afirmou que também tentará participar e organizar formas da PGE auxiliar na demanda.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

"Governo do Rio Grande do Sul desapropria imóvel da Ocupação Saraí"

Fonte: Sul 21.
Foto: Juliano Antunes/Sul21
Prédio tem os números 11 e 21 da Caldas Júnior e 899 da Avenida Mauá, no centro de Porto Alegre | Foto: Juliano Antunes/Sul21
Débora Fogliatto
O Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Sul publicou, nesta sexta-feira (4), o decreto que declara o imóvel da Ocupação Saraí, na esquina da rua Caldas Júnior com a Avenida Mauá, como bem de interesse social. O anúncio público foi feito por meio do Gabinete Digital, setor vinculado à Secretaria-Geral de Governo que funciona como ferramenta de ligação entre os cidadãos e o estado.
A partir de agora, o imóvel se torna um bem de interesse social para fins de desapropriação, “destinando-o à habitação popular e inserindo o imóvel nas políticas de habitação social do Estado”, esclareceu o Gabinete. A participação deste setor do governo na história da desapropriação da Saraí começou há alguns meses, quando pessoas e movimentos sociais que pediam pela assinatura do decreto começaram a postar na página do Gabinete Digital imagens e vídeos com a hashtag #OcupaSaraíEuApoio.
O imóvel está ocupado por cerca de 20 famílias há dez meses, período em que houve tentativas de diálogo com o proprietário e em que o secretário de Habitação Marcel Frison buscou alternativas possíveis junto aos moradores para garantir que o prédio cumprisse a função social de moradia. Na última semana, as famílias buscaram dialogar com a Prefeitura de Porto Alegre, para garantir o aluguel social, visto que as pessoas não podem permanecer no prédio durante o processo de desapropriação.
A desapropriação do imóvel significa mais do que moradia digna para as famílias que residem lá. Durante os últimos nove anos, o prédio foi ocupado diversas vezes pelo Movimento Nacional de Luta pela Moradia para reivindicar que, permanecendo sem uso por seu proprietário, fosse destinado à moradia social.
Nos últimos meses, segmentos da população e dos movimentos sociais se articularam em favor da Saraí, promovendo atividades culturais, protestos e mobilizações diversas em prol da moradia popular. A Ocupação Saraí se tornou também um símbolo na luta pela moradia no centro da cidade e contra a especulação imobiliária.
O decreto
No Diário Oficial, consta, na página 12, que o governador do Estado declara o imóvel como de interesse social, “considerando os preceitos constitucionais que definem a moradia como direito social e fundamental” e “considerando a necessidade de promover a justa distribuição de propriedade ou condicionar seu uso ao bem estar social”.
Foto: Reprodução/ Gabinete Digital
Foto: Reprodução/ Gabinete Digital
Confira aqui as matérias do Sul21 publicadas ao longo dos dez meses de ocupação:

domingo, 25 de maio de 2014

Ocupação Saraí: direito de moradia em discussão

Publicado originalmente no site do SAERGS.

A discussão da Função Social da Propriedade veio novamente à tona após os moradores da Ocupação Saraí e o governo do Rio Grande do Sul tentarem dialogar com o proprietário do prédio localizado no Centro de Porto Alegre, e ocioso há dez anos, para entrar em um acordo sobre sua utilização. Em uma audiência solicitada pelo secretário estadual de Habitação, Marcel Frison, e mediada pela juíza Cláudia Maria Hardt, o proprietário do imóvel, Ricardo Deconto, da Risa Administração e Participações LTDA, não aceitou a proposta de venda do prédio e pediu novo processo de reintegração de posse, com prazo de 60 dias.

Na audiência realizada no fim de abril, o secretário apresentou a proposta de compra do prédio visando atender as famílias ocupantes. O proprietário não aceitou, alegando que faria uso do seu prédio, na rua Caldas Júnior, em Porto Alegre. Diante desse quadro, foi pedido a imediata Reintegração de Posse. O advogado Cristiano Muller, do Centro de Direitos Econômicos e Sociais (CDES), integrante da assessoria jurídica da Ocupação Saraí composta ainda pelo SAJU/UFRGS e pela Acesso Cidadania e Direitos Humanos, interviu alegando questões do processo legal da ação e conseguiu o prazo de 60 dias.

A possibilidade de reintegração de posse levanta novamente a discussão sobre o direito de moradia dessas famílias, pois caso ocorra a reintegração, haverá o despejo das moradores ocupantes. No entanto, para arquiteta e urbanista do CDES, Karla Moroso, esse debate não se trata apenas de prover moradia para as 30 famílias que ocuparam o imóvel. “Trata-se de reverter uma lógica. Uma lógica que vigora até hoje e vem mantendo intacta a propriedade privada”.

Cred. Defesa Pública da Saraí
“O que a Ocupação Saraí nos mostra é que mesmo diante de tantas normas que defendem o direito à cidade e à moradia e do avanço dessas rumo às políticas públicas que visam articular essas normas ao grande montante de recursos existentes para garantir esses direitos, ainda temos milhões de famílias completamente à margem desses direitos. Ainda temos sistemas e instituições insuficientes (ou ineficientes?) que não conseguem promover, proteger e garantir o direito humano à cidade e à moradia”, ressalta Karla.

A arquiteta e urbanista defende que essas garantias se materializem na vida das pessoas e na cidade. Ou seja, que a Função Social da Propriedade aconteça e que o direito à moradia de milhões de famílias seja maior que o direito à propriedade. “E aqui estamos falando de um direito individual que sequer foi exercido pelo dito ‘proprietário’ do prédio da Caldas Júnior, visto que ele está abandonado há 10 anos. Romper com essa realidade é reforma urbana”, afirma.

Karla Moroso salienta que o Estatuto da Cidade trouxe diversos instrumentos urbanísticos e de gestão para fazer cumprir a Função Social da Propriedade, articulando-a com outros dois princípios fundamentais para o desenvolvimento urbano: a gestão democrática e a justa distribuição dos ônus e benefícios do processo de urbanização. A profissional analisa que, nessa lógica, o prédio da Caldas Júnior não cumpre com a função social, pois está vazio e abandonado em uma área central urbanizada e numa cidade com considerável déficit habitacional. “Sua destinação também escapa de um processo democrático, visto que sua destinação está sendo decidida considerando apenas um viés legalista descontextualizado da questão do desenvolvimento urbano”, pondera Karla.

Outro ponto levantado por Karla é a especulação imobiliária. O imóvel passou de R$ 700 mil – valor que foi pago pela CAIXA há dez anos – para R$ 4,5 milhões, segundo o advogado do proprietário, sem que tenha havido investimentos por parte do mesmo. “Com certeza a localização do imóvel, com toda a infraestrutura disponível e as possibilidades de investimentos públicos previstas para a região, são fatores bastante determinantes para essa valorização e consequente capitalização por parte de um proprietário. Ou seja, enquanto a sua ‘não posse’ gerou nos últimos anos a degradação do prédio, ações externas, de ordem direta e especulativa provocaram a sua supervalorização”, salienta Karla.

O parcelamento, edificação e utilização compulsórios, o IPTU progressivo no tempo e a desapropriação com títulos da dívida pública são instrumentos que, se regulamentados, seriam uma grande ferramenta para frear a periferização das cidades e promover habitações de interesse social em áreas mais centrais e infraestruturadas, de acordo com a arquiteta e urbanista. Esses instrumentos, na visão da profissional, devem ser utilizados de forma conjunta pelos municípios com o objetivo de induzir a utilização da terra urbanizada.

“Para isso, é preciso que esses instrumentos estejam presentes no Plano Diretor de forma combinada com uma regulamentação que indique em quais zonas da cidade os imóveis vazios e subutilizados devem ser gravados para a aplicação da Lei. É importante definir o que é um imóvel vazio, quando é que ele não cumpre com uma função social e quando ele está subutilizado, caso contrário o instrumento não tem aplicabilidade, é apenas um texto de lei. O município de Porto Alegre não regulamentou esses instrumentos e por isso, hoje, para salvar as famílias do despejo só resta a desapropriação”, reforça.

Cred. Defesa Pública Saraí
Ainda destaca que, no custo da unidade habitacional não entrariam, por exemplo, os custos de urbanização necessários para a implantação de loteamentos em áreas mais rarefeitas e periféricas, que acabam recebendo esses empreendimentos de baixa renda sob o argumento de que a terra é mais barata. “Assim, sobrariam mais recursos para investir nas unidades habitacionais, para qualifica-las. A reciclagem de prédios abandonados em centros urbanos deteriorados é sem dúvida uma boa estratégia, pois além de aproveitar a infraestrutura existente e não estender as redes urbanas, tencionando zonas rurais e ambientais, traz vida para os espaços da cidade que concentram apenas um tipo de uso e que acabam por se transformar em verdadeiras cidades fantasmas quando os comércios fecham as suas portas”.

Karla Moroso salienta que os financiamentos disponibilizados pelo Governo Federal para estados, municípios e também para as entidades (movimentos sociais organizados ou entidades que os apoiam) estão pensados nessa lógica. “Em Porto Alegre, na avenida Borges de Medeiros temos um exemplo desse tipo de solução, promovido e viabilizado pelos movimentos sociais e suas assessorias. Na rua Barros Cassal, em Porto Alegre, o Movimento de Luta pela Moradia está trabalhando para transformar em moradia um prédio da pertencia à União que foi destinada para habitação de interesse social. Contudo, não basta que tenhamos normas e financiamentos. O que estamos vivendo nas nossas cidades mostra que, mesmo com grandes avanços, normas e financiamentos estão sendo insuficientes para garantir a reforma urbana. Precisamos de mais, precisamos avançar, pois ainda temos muita gente sem casa e muita casa sem gente. É preciso tirar a chamada Reforma Urbana do papel e fazer ela acontecer na cidade, com reflexos na vida das pessoas”, conclui.

A Ocupação


As 30 famílias que vivem no imóvel localizado na esquina da rua Caldas Júnior com a avenida Mauá, no Centro de Porto Alegre, ocupam o prédio há oito meses. É a ocupação mais longa da edificação, desde que foi utilizada como moradia popular pela primeira vez, em 2005. O imóvel, que funcionou como escritório da Caixa Econômica Federal, foi adquirido pela família Deconto, que comanda a Risa Administração LTDA, nos anos 2000, e ficou abandonado desde então. O prédio já foi ocupado outras três vezes, sendo a mais longa delas por quatro meses, entre 2006 e 2007.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Prédio no Centro da Capital é símbolo da luta por moradia

Fonte: Correio do Povo

Edifício na rua Caldas Júnior foi ocupado quatro vezes desde 2005

Audiência pública discutirá Ocupação Saraí<br /><b>Crédito: </b> Samuel Maciel
Audiência pública discutirá Ocupação Saraí
Crédito: Samuel Maciel
No Centro de Porto Alegre, um prédio abandonado se tornou símbolo de luta por moradia para 40 famílias. O imóvel de sete andares localizado na rua Caldas Júnior foi ocupado quatro vezes, desde 2005, por famílias que se uniram ao Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM). Atualmente está instalada no local a Ocupação Saraí. Com correntes e um cadeado cerrando a entrada do prédio, as famílias reivindicam que o imóvel seja desapropriado e que no local seja executado o projeto original de construção de 40 apartamentos para famílias de baixa renda.

"Quando morar é um privilégio, ocupar é um direito." A frase pintada em vermelho nas paredes descascadas do prédio sinalizam a bandeira de luta, assim como as correntes grossas asseguram as portas de ferro sob vigilância constante. O prédio foi construído com recursos públicos e seria destinado à moradia social, mas isso nunca aconteceu. Foi repassado à Caixa Econômica Federal para servir de escritório. Em 2005, o movimento fez a primeira ocupação. Depois de esvaziado, foi vendido e deixou de ser federal para se tornar propriedade particular. Um dos membros do crime organizado comprou e o PCC cavou um túnel para assaltar um banco. Depois disso, o movimento ocupou novamente, ainda em 2006, e foi despejado no ano seguinte, em uma grande operação policial.

Em 2011, foi realizada a terceira ocupação, em caráter de denúncia, durante a Marcha Estadual de Luta pela Reforma Urbana. No ano passado, houve a quarta ocupação. Porém, novamente as famílias enfrentam uma ordem de despejo. No entanto, nessa última ordem foi concedida a realização de uma audiência pública de conciliação, que será dia 29. A coordenadora no RS do MNLM, Ceniriani Vargas da Silva, explicou que a luta segue para que possa ser cumprida a função social da propriedade. "Trabalhamos esse imóvel como um exemplo. Em Porto Alegre, há 48,9 mil moradias desocupadas e 40 mil famílias sem ter onde morar. Por isso, lutamos pela desocupação e pela moradia popular", afirmou Ceniriani.

Os ocupantes do local têm diversas idades. Segundo Ceniriani, muitas dessas pessoas deixaram de pagar aluguel, devido ao alto valor, e aderiram à ocupação. Neste sábado, antecedendo a audiência pública, os moradores irão realizar um ato de apoio à Ocupação Saraí.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Ocupação Saraí recebe apoio popular diante de nova ação de despejo dos moradores

Fonte: Sul 21.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Famílias ocupam imóvel há sete meses pela quarta vez | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Débora Fogliatto
A comunidade da Ocupação Saraí vive há sete meses no imóvel localizado na rua Caldas Júnior, no centro de Porto Alegre. Eles aguardam por uma audiência de conciliação determinada pela 19ª Vara Cível do Tribunal da Justiça do estado, marcada para o dia 29 de abril. A decisão de realizar a reunião foi tomada nesta quarta-feira (10) pela juíza Cláudia Maria Hardt, ante o “interesse manifestado pela Administração Pública” e “observadas as diretrizes do bem comum e do aspecto social que a questão por certo revela”.
A audiência, que deve contar com a participação do estado do Rio Grande do Sul e os proprietários do prédio, foi pedida por iniciativa de representantes jurídicos dos moradores. Neste sábado (12), a Saraí recebe um evento da sociedade civil, organizado pelo movimento Defesa Pública da Alegria, para demonstrar apoio e protestar contra a especulação imobiliária.
Enquanto os moradores pedem o direito de ter o prédio desapropriado, para que possam permanecer ali de forma regular, a empresa Risa Administração e Participações LTDA já emitiu dois pedidos de despejo, um em agosto de 2013 e o outro em março de 2014. A assessoria jurídica dos moradores entrou com um recurso para derrubar a primeira liminar que pedia o despejo da comunidade. “Havíamos conseguido suspender provisoriamente até agora. Mas o tribunal revogou a decisão e o processo voltou para o cartório, que emitiu nova ordem de despejo no dia 28 de março”, contou o advogado Cristiano Müller, integrante do Centro de Direitos Econômicos e Sociais.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Comunidade é composta por cerca de 30 famílias | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
O pedido de despejo poderia ser cumprido pela Brigada Militar a qualquer momento, mas as famílias entraram em contato com a Secretaria de Habitação do Estado (SEHAB) e conseguiram um ofício para que a ação não fosse levada a cabo e novas alternativas fossem estudadas. “Nós emitimos um documento à juíza afirmando o interesse do estado em resolver a questão, preservando o direito à moradia das pessoas que ocuparam o prédio, assim como o direito à propriedade do proprietário”, explicou o secretário Marcel Frison. Ele afirmou que o estado pretende se colocar à disposição do proprietário para negociar em termos de valores o processo de transferência do imóvel, para que se possa fazer um projeto habitacional no local. “Como o estado tem poucos recursos, a ideia é evoluir numa negociação de parcelamento ou permuta de imóveis, talvez outros que sejam mais interessantes para o proprietário. O estado vai ser ativo no sentido de tentar resolver o problema a partir da lógica social”, garantiu.
Os documentos foram enviados à Justiça e, após análise do Ministério Público (MP), voltaram nesta quarta-feira (10) à 19ª Vara Cível de Porto Alegre, que determinou uma audiência de conciliação entre todas as partes envolvidas. A SEHAB lamenta, no entanto, ter tido dificuldades nas tentativas de diálogo com o proprietário, mas confirmou presença na reunião a ser realizada no dia 29.
Direito à moradia
O prédio está abandonado há mais de dez anos, sendo os últimos sete em posse da empresa Risa LTDA, que entrou com o recurso pedindo o despejo dos moradores. O imóvel já foi ocupado anteriormente três vezes, a primeira delas em 2005, enquanto pertencia à Caixa Econômica Federal. Em 2006, após sua transferência à iniciativa privada, passou a ser usado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) em Porto Alegre. Em estado de litígio após a ação da organização criminosa, foi ocupado novamente pelo Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) em 2007, quando os moradores foram despejados em uma operação policial quatro meses depois.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Ocupação é promovido pelo Movimento Nacional de Luta pela Moradia | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Agora, cerca de 30 famílias ocupam o imóvel há sete meses e recebem crescente apoio popular pela desapropriação do edifício. Graças à mobilização dos moradores, já foram realizadas audiências nas comissões de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa e da Câmara Municipal. As famílias também recebem assistência do Serviço de Assessoria Jurídica da UFRGS (SAJU) e angariam ajuda da população através de um abaixo-assinado que pede a desapropriação do imóvel para moradia popular, e que já conta mais de três mil assinaturas.
Mas os moradores dependem de um possível diálogo com os proprietários, por meio da ação do estado e da Justiça na audiência que acontecerá em menos de um mês. Enquanto isso, buscam conscientizar a comunidade porto-alegrense sobre a situação da Saraí. O evento que será realizado no sábado também chamará a população para assinar o abaixo-assinado e para demonstrar a oposição popular ao despejo das famílias. “Queremos deixar claro que é uma luta não só das famílias, mas da população em geral”, explicou Ni, que faz parte da coordenação do MNLM e morou na Saraí durante a terceira ocupação, em 2006. A Defesa Pública da Saraí acontece neste sábado (12), a partir das 15h, na frente da Ocupação, no número 11 da rua Caldas Júnior.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Ocupação Saraí Resiste



Há 7 meses pessoas resistem, reivindicam e constroem seus lares num edifício abandonado há mais de 10 anos. Convidamos todos a conhecer melhor, apoiar e comprar essa luta. A Ocupação Saraí precisa da participação de todos pra mostrar que ainda há esperança.

"Quando morar é um privilégio, ocupar é um direito."

Abaixo assinado pela desapropriação desse imóvel pra moradia popular: http://www.peticaopublica.com.br/pvie...

Junte-se aos moradores da Saraí sábado, 12 de abril, a partir das 15h em frente à Ocupação para demontrar seu apoio e evitar o despejo das famílias.
https://www.facebook.com/events/61790...

Mais informações sobre a ocupação na página do facebook
https://www.facebook.com/pages/Ocupa%...

quarta-feira, 12 de março de 2014

Festa 6 meses de resistência da Ocupação Saraí - Porto Alegre

DATA: 14 de março (sexta-feira
Por: Lutadores Urbanos


Há 6 meses o Movimento Nacional de Luta pela Moradia ocupa pela 4º vez um prédio no centro de Porto Alegre. Ação vinculada à Jornada Nacional de Luta pela Reforma Urbana.
As guerreiras e guerreiros da Ocupação Saraí já enfrentaram todo tipo de dificuldade, desde as intermináveis faxinas, a instalação de água, luz... até a violência por parte da Brigada Militar, que em uma madrugada invadiu a ocupação e agrediu moradores...

Enfrentaram todo o descaso do poder judiciário que sempre coloca o direito à propriedade acima da vida... que sem qualquer diálogo determinou a ordem de despejo...
Mas também contaram com o apoio e solidariedade de companheiros e companheiras que também acreditam que só com organização e ação direta poderemos construir um outro modelo de cidade para o conjunto dos trabalhadores e trabalhadoras e combater este que coloca os interesses do capital acima de tudo.
A marca da Ocupação Saraí é a diversidade, agregando lutadoras e lutadores urbanos de diversas organizações, movimentos, partidos e independentes... socialistas, comunistas, anarquistas e também aqueles que nem sabem que conceitos são estes... mas que vivenciam a luta de classes todos e dias...Em apenas 1 mês mais de 2 mil pessoas (camelôs, guardadores de carros,ambulantes, vizinhos do prédio, trabalhadores e moradores do centro) assinaram um abaixo assinado em apoio a ocupação.

A LUTA DA OCUPAÇÃO SARAÍ SE FORTALECE A CADA DIA, E CADA DIA DE RESISTÊNCIA É UM DIA DE VITÓRIA!
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Para assinar o abaixo assinado pela desapropriação do Prédio Ocupado na Rua Caldas Júnior, Esquina com Av. Mauá (Porto Alegre) acesse o site:


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O DIREITO DE MORAR: A OCUPAÇÃO SARAÍ


20/02/2014 por 

Texto e Fotos por Jonas Lunardon e Yamini Benites
O segundo capítulo da Constituição brasileira versa sobre os Direitos Sociais do cidadão. Ali, no artigo sexto, está:
São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.
Ou seja: a moradia equivale à saúde, à educação e a tantos outros enquanto direitos sociais garantidos ao cidadão. É obrigação do Estado, portanto, prover condições de moradia a brasileiras e brasileiros, não importa de onde vêm ou onde vivem.
saraí (72 de 79)
Do muito movimentado centro de Porto Alegre, grande parte das pessoas que circulam não sabe que em uma das suas esquinas esquecidas – abandonadas, é melhor dizer – está um prédio vazio – abandonado, é melhor dizer – que pela quarta vez é ocupado por famílias integrantes do Movimento Nacional de Luta e Moradia, o MNLM. Talvez essas pessoas lembrem de um prédio aleatório que, pela situação de abandono, até mesmo o maior grupo de crime organizado do país, o PCC, fez dali sede para uma fracassada tentativa de roubo a banco. Esse prédio amarelo de paredes pichadas está em frente ao Cais do Porto, tem entrada pela Rua Caldas Júnior na esquina com a Avenida Mauá e presenteia, aos poucos que já subiram suas escadas, uma das belas vistas que a cidade possui do Guaíba.

Quando chegamos, o estrondo das correntes batendo com força na porta de metal da entrada, assim como a grossura dos cadeados que a trancam, fazem clara a necessidade constante de vigilância dos novos moradores. Afinal, em meados do último setembro, a polícia militar invadiu o prédio e agrediu os ocupantes. O próprio Comandante da Brigada Militar admitiu a agressão e declarou que a operação foi ilegal e que não teve ordens do comando central. Os primeiros contatos de nossa reportagem seguem os tons de cautela. É com as conversas, as demonstrações claras de nossas intenções, um início de convivência no qual  o receio dá lugar à abertura. Um afeto mais do que suficiente para dar suavidade à dureza dos metais e calor ao frio de uma construção de espaços semidestruídos. Um lugar que, num primeiro momento, precisa de imaginação para que muitos de nós o consideremos algo perto de uma casa. Mas que se faz perceber, depois das impressões iniciais, o potencial que têm as pessoas para transformá-lo em lar.

Quem nos recebe nesse primeiro encontro é Paula Soares e Ceriniani Vargas, a Ni, duas integrantes de anos do MNLM, experientes na luta pelo direito à moradia no país. Ni, graduanda em Ciências Sociais na UFRGS, é uma das coordenadoras do movimento no Rio Grande do Sul e descreve muito das questões de formação e de ideais que compõem o coletivo:
- Os movimentos pela moradia começam lá pelo final da década de 80, onde se tem um grande movimento das pessoas saindo da área rural e indo para as cidades, e onde existe uma maior abertura para que se possa formar esse tipo de iniciativa. Nessa época, o MNLM trata muito da questão das ocupações irregulares, de pessoas que vinham tentar a vida na cidade e descobriam que aqui não era tudo o que diziam, que era muito difícil de sobreviver. Em 1990, houve um grande encontro desses movimentos locais, e surgiu o Movimento Nacional de Luta pela Moradia.

Antes focado na regularização e resistência dos que ocuparam morros, arroios, terrenos baldios e construções abandonadas, hoje o movimento é atuante em diversas instâncias pela garantia do direito à moradia. É integrante do Conselho das Cidades, criado pelo Governo Federal e orquestrado pelo Ministério das Cidades, e tem na questão da reforma urbana – uma reforma que garanta uma moradia digna e legal à população sem-teto – a sua maior bandeira. Mais do que isso, uma reforma que garanta às populações carentes habitações nas regiões efetivamente centrais das cidades, acabando com o estigma de programas governamentais que, insistentemente, acabam conduzindo famílias para as periferias das metrópoles, longe de seus locais de trabalho e de serviços de necessidade básica inexistentes nas regiões afastadas.

Paula, 50, é uma das coordenadoras da atual ocupação, grande parte deles integrando movimentos negros e pelo direito à moradia. É uma negra de belos cabelos trançados que fala da sua militância como quem descreve uma paixão. Ela transmite o caráter apaixonante ao qual adjetiva suas ações ao afirmar que “se não fosse por essa luta, muitos de nós não teríamos onde morar ou como sobreviver”. É uma paixão que se confunde com o instinto de sobrevivência quando fala que não estremece quando vê, sem poder reagir, agentes da lei botando abaixo lugares humildes que por certo tempo foram sua morada.

A entrada do prédio é tomada por várias faixas que identificam a ocupação e deixam claro o porquê de estarem ali. Segundo os moradores, é um reconhecimento necessário para demonstrar que são indivíduos e famílias na busca por habitação, e que não necessitam ficar às sombras. Isso dá mais abertura com a vizinhança – por sinal, uma das políticas dos moradores: tentar relacionar-se bem com os vizinhos. O primeiro andar é da portaria, onde os visitantes necessariamente precisam se identificar. Após o primeiro lance de escadas, está a área de convivência, onde ocorrem as atividades culturais e os encontros promovidos pela Ocupação. A Ciranda, área das crianças, a cozinha coletiva e os banheiros, também compartilhados, estão aqui. O terceiro andar é o dos quartos, atualmente delimitados por lonas e barracas – o acesso é restrito. Por toda a ocupação, as paredes, ora destruídas, agora ganham vida com pinturas e frases de efeito. “Se morar é um privilégio, ocupar é um direito” aparece com frequência. A área da Ciranda ganhou a decoração de dezenas de palmas de mãos de crianças gravadas com tinta rosa. Muitas delas já são praticamente adultas, visto que as palmas estão ali registradas faz 7 anos. Assim como outras pinturas, elas resistem desde as primeiras ocupações. Atualmente, a ocupação abriga em torno de 30 pessoas, de crianças a senhoras de 70 anos.

O prédio tem uma história atribulada. Construído com recursos públicos pelo Banco Nacional de Habitação, ele era destinado, justamente, à moradia social, onde abrigaria entre 40 e 50 famílias. No entanto, isso nunca aconteceu. Repassado à Caixa Econômica Federal, serviu de escritório até ser esvaziado, há mais de 20 anos. A Caixa então decidiu vendê-lo, e a construção deixou de ser federal para se tornar propriedade particular: no início dos anos 2000, foi vendido por 600 mil reais para a família De Conto, controladora da Risa Empreendimentos Imobiliários LTDA. Até hoje, o prédio continua abandonado, o que demonstra claramente, segundo o MNLM, que os novos proprietários se interessam no imóvel somente pela possibilidade de lucro a partir de especulação. Foi nesse meio tempo de total abandono que a polícia descobriu que o PCC cavava um gigantesco túnel no interior do prédio que seria utilizado para um assalto a banco na capital gaúcha. A Risa havia revendido o prédio por 1 milhão e 200 mil reais, o dobro do valor que havia pago, para um laranja da organização. Isso em 2006. Depois de grande imbróglio, o prédio voltou para o controle da empresa, apesar de a matrícula do imóvel nunca ter sido oficialmente transferida pela Caixa Econômica. Ainda assim, o prédio continuava vazio.
300 contra 30
O prédio é símbolo da luta nacional pela moradia, diz Ni. Essa é a quarta vez que ele é ocupado. Duas delas foram ações de denúncia pela situação do prédio, com duração de um ou dois dias. A ocupação de moradia que mais durou teve 4 meses, de 20 de novembro de 2006 a 23 de março de 2007. A maneira como foram removidos também é simbólica – mas da repressão. Paula e Ceriniani contam juntas uma história ouvida muitas vezes, por muitas vozes, nos encontros na Saraí:
“Era seis da manhã e nós acordamos com o barulhos das sirenes, da marcha e dos cassetetes batendo nos escudos. A Avenida Mauá estava toda fechada e mais de 300 policiais nos cercavam. O batalhão de operações especiais descia a fachada do prédio vizinho de rapel. E aqui dentro estavam umas 30 pessoas, inclusive as crianças. Nós sabíamos que, mais do que garantir a nossa expulsão, eles queriam deixar claro como iam agir nessas situações. Era uma questão de demonstração de força, uma agressão psicológica.”
saraí (7 de 79)
Na época, a ocupação se chamava 20 de Novembro. Daí, surge a cooperativa de mesmo nome, hoje um dos principais núcleos do MNLM no Estado, servindo de artifício para lidar com questões legais e também de fonte de renda: a cooperativa tem, além de outras atividades, produções de artesanato, serigrafia e panificações.

Após a remoção, o prédio foi ocupado novamente em 2011, uma ocupação-simbólica de 40 horas com o objetivo de denúncia. Em 28 de agosto deste ano, em uma ação que integrou a Jornada Nacional de Luta pela Moradia, o prédio foi ocupado uma vez mais. Decidiram, agora, que a ocupação se chamaria Saraí. Integrante do movimento, Saraí foi a primeira vereadora negra de Porto Alegre. Faleceu em março. Agora, a intenção é efetivamente reverter o prédio em moradia social.
Função social da propriedade
A primeira tentativa do Movimento para a situação é obter na Justiça a desapropriação por abandono do imóvel. O principal argumento dos ocupantes é fundamentado por algo chamado função social da propriedade.

“Fruto da luta dos movimentos pela moradia, foi aprovado o Estatuto da Cidade, que transforma em lei a questão da função social da propriedade. Ou seja, o proprietário não tem o direito sobre uma propriedade privada só porque ele pagou por ela. Também tem obrigações, seja de terrenos, de casas, prédios, outras construções. Não é porque aquilo é propriedade privada que pode ficar abandonado por décadas se outras tantas pessoas podem fazer daquilo moradia. Mesmo com a lei federal aprovada, nenhum estado a cumpre justamente porque as construtoras e os empresários utilizam esses imóveis para a especulação e, hoje, é a vontade deles que vale”, explica Ni.

Ela conta que, na última reunião na Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do RS, foi preciso deixar claro ao procurador de Justiça presente que ela “também entendia de leis” ao se posicionar contra a reintegração de posse concedida pela Justiça aos proprietários atuais. O argumento serviu e a Comissão acertou um prazo de 60 dias de negociação antes que a reintegração de posse seja cumprida. O deputado estadual Jeferson Fernandes, PT, presidente da Comissão, explica que o prazo também foi concedido para garantir segurança aos ocupantes depois da violência policial mais recente, além de uma remoção, se necessária, o menos agressiva possível. Aliás, a ordem de reintegração de posse do prédio foi expedida 4 dias (contando aí um final de semana) após a ação de ocupação. O deputado também ressalta que procedimentos legais foram deixados de lado na aprovação do despejo e que isso pesou para que os moradores obtivessem um prazo para negociação. Dadas as tratativas na Comissão, a ordem não foi cumprida. Enquanto isso, as famílias dali têm até 24 de dezembro para negociarem, discutirem, resistirem e pressionarem os governos para garantir que não sejam uma vez mais removidas.

No dia 12 de novembro se realizou uma Audiência Pública na Câmara de Vereadores para debater a questão da Saraí. Estavam presentes, além de vereadores, um representante da Caixa Econômica Federal, a defensora pública Adriana Schefer, que trabalha com movimentos sociais para a habitação, uma procuradora do município de Porto Alegre, o secretário de Habitação do estado, uma representante do Departamento Municipal de Habitação, além, é claro, de vários ocupantes da Saraí. Na Audiência, a Procuradora Andrea Vizzotto esclareceu que, apesar de ser na teoria a melhor ferramenta legal a ser buscada para a conquista do prédio, entrar com um processo para a desapropriação do imóvel baseado na questão da função social da propriedade é inviável. O tempo da burocracia é imenso, o processo como um todo duraria mais de 3 anos, no mínimo. É um artifício legal que fica inutilizado por sua própria regulamentação: uma burocracia que não cabe às urgências das populações. Mesmo com diversas indefinições levantadas na Audiência, como o atraso no pagamento do IPTU pelo proprietário, a questão do financiamento ainda não esclarecida pela Caixa e outros entraves que servem de argumento para a transformação do prédio em moradia social, a desapropriação parece não ser uma opção viável.

Dessa maneira, a alternativa no horizonte da Ocupação causa estranhamento à população em geral quando se fala em movimentos de luta por moradia ou de pessoas sem-teto: a possibilidade de compra do imóvel.. É claro que para tanto seriam necessários recursos e financiamentos governamentais, além de interferências como declarar o interesse social do imóvel. No entanto, tal alternativa vem sendo utilizada cada vez mais por movimentos pela moradia social. O programa federal Minha Casa, Minha Vida tem uma regulamentação específica que trata do financiamento dos recursos geridos por entidades cadastradas junto ao governo. A cooperativa 20 de Novembro é cadastrada sendo, assim, capacitada para gerenciar recursos tanto da compra quanto das reformas necessárias ao prédio. E tal opção não seria inédita: a própria cooperativa é a entidade gestora de quase 5 milhões de reais destinados à obra de um prédio na Rua Barros Cassal, também na região central de Porto Alegre, que foi conquistado pelo movimento para servir de moradia social. Diversas famílias já estão no processo de fazer daquele prédio sua residência legal.
Vazios Urbanos
Uma das necessidades do movimento é de conseguir fazer com que a sociedade entenda que não só os mais carentes são afetados pela especulação imobiliária, mas todos os cidadãos. O jogo das construtoras e dos especuladores, segundo o MNLM, afeta a todos ao elevar o preço dos imóveis artificialmente visando tão somente ao lucro. É o caso clássico de formação de uma bolha, já que toda a valorização nada mais é do que, como diz o termo, especulativa. Além, é claro, de toda a função social que deveria ser cumprida. Só em Porto Alegre, dados do IBGE de 2010* confirmam que existem mais de 46 mil imóveis vazios e sem uso, que poderiam servir de moradia. O MNLM aponta que 70 mil famílias estão em situação de desabrigo na região metropolitana da Capital.

Essa questão dos vazios urbanos é muito presente entre os que discutem a reforma urbana nacional e internacionalmente. Sobretudo os grandes vazios urbanos nas áreas centrais das grandes metrópoles. Em 2010, havia cerca de 6,07 milhões de habitações vagas no Brasil. O número necessário para suprir as carências de moradias familiares era de 5,8 milhões de domicílios*. Havia em torno de 200 mil imóveis vagos a mais do que o necessário para suprir o déficit existente. Países como Inglaterra, Holanda e Alemanha têm legislações específicas sobre o tema, proibindo os imóveis centrais de ficarem vazios sem justificativa por determinado tempo, geralmente em torno de seis meses. Após esse período, a propriedade pode ser ocupada e, inclusive, demandada judicialmente pelos ocupantes. Os movimentos sociais por moradia, em muitos países europeus, foram fundamentais para o reconhecimento de direitos básicos e o estabelecimento dos Estados de Bem-Estar Social. Um dos desafios dos estudiosos e militantes em solo brasileiro é elevar a discussão a tal ponto. Ni afirma que é preciso fazer essa ideia de reforma urbana estar atrelada às reformas necessárias ao desenvolvimento do país. “Pela luta dos movimentos do campo, hoje muitos entendem a importância da reforma agrária para o país. Podemos comparar os latifúndios improdutivos com os grandes vazios urbanos das cidades”, diz ela. “É uma improdutividade que afeta toda a sociedade”.
Máquinas de estragar casas
Os ocupantes contam que a situação das crianças que vivem nas ocupações não é tão-somente casualidade. É, além disso, ideologia. Num dos encontros na Ocupação, Ezequiel Morais, outro coordenador do MNLM, explica que “para nós, o melhor lugar para a criança é junto com a família. O movimento é um movimento família na essência”. Paula concorda descrevendo como o primeiro lugar a ser organizado nas ocupações em que participou sempre foi a área infantil, chamada de Ciranda, onde as crianças convivem. Mas se as situações pelas quais passam são capazes de traumatizar adultos que há muito lidam com estas questões, fica claro que as crianças necessitam de um olhar ainda mais cuidadoso.
Ocupação Saraí PoA RS
Na ocupação Saraí, assim como naquelas que a antecederam no mesmo prédio, vivem jovens e suas respectivas famílias. São organizadas atividades de educação e de diversão em conjunto, Desde novinhos, os pequenos e pequenas aprendem não só como é importante lutar para garantir seus direitos, mas também uma outra forma de vivência – compartilhada, coletiva, diferente do que comumente se propaga porta afora do prédio ex-abandonado onde hoje moram.

A escolha pela vivência nessas lutas também é uma escolha de encarar a dura realidade com aqueles que se elegeram para viver junto: amores, parentes, amizades. Para as mães e pais, é uma escolha de não fazer da ilusão uma marca da infância.
Quando da demolição das casas da última ocupação onde morava, Ni conta:
“Até hoje, se minha filhinha vê uma retroescavadeira na rua ela aponta e diz: olha, mãe, uma máquina de estragar casas”.
*Informações do Censo IBGE/Pnad 2010. No cálculo de imóveis vazios não são considerados imóveis de veraneio e de ocupação ocasional, nem aqueles em que os moradores se encontravam ausentes (por exemplo, em viagem) durante a realização da pesquisa.